“A menina dos fósforos”


Publicado em 22 de Abril de 2026 ás 16h 51min

Foi na última noite do ano. Fazia calor e ventava, um cheiro de maresia vinha do mar. Em meio à sombra morna, surgindo a intervalos sob a fraca luz dos postes, a menina caminhava pelas ruas.

 

Ia descalça, vestidinho puído em cima da pele. Com roupa não se importava, nem sentia, mas seria bom que ainda tivesse os seus tamancos. Eram forrados de chita vermelha, vistosos, grandes por demais, e haviam se acabado antes mesmo que os alcançassem em tamanho, se gastado virando chinelos, sempre enormes, até se perderem na estrada. Lindos, lembravam alvarengas, barcaças ou canoas, berços navegando rente ao chão. Se agora pisasse neles, não machucaria tanto os pés.

 

Apertou contra o peito a caixa de sapatos cambaia, espiando de soslaio o que estava dentro. Fogos de vender: rodinhas, busca-pés, traques, as estrelinhas e os fósforos-de-cor. Tudo pouco, tudo pobre. Mas ninguém comprara nada o dia inteiro e ela não ganhara nem um tostão.

 

Caindo de cansaço e fome, a menina quase se arrastava. O suor lhe empastava os cabelos agastados, alourados, e gotas escorridas vincavam o seu rosto mofino, onde os olhos afloravam apartados e rasos, separados pelo narizinho achatado que farejava delícias. Uns longes de rabanada, de canjica e canela, de carnes. Pois era véspera de Ano-novo, disso ela sabia. Ali andando sozinha.

 

Conseguiu chegar à esquina, aboletou-se no vão entre duas casas. Agachada, escondida, um bichinho. De banda, a caixa com os fogos. Não vendera nenhum, como ia voltar? Pai desempregado, adoidado, capiongo de meter medo. E mais não tinha: mãe morrera, avó também. Casa, hem? Dou por visto. Igual a por aqui, no meio da rua. Se apareço e não trago nem um trocado, estou é pedindo pisa. Melhor não aventurar.

 

Perdida de sono e fraqueza, um buraco adejando nela toda, contudo, resistiu acordada. Reparou nos fogos, ali esperando comprador. E já que não tinha um só vivente na rua deserta, se pôs a olhar os fósforos coloridos. A olhar atraída, enfeitiçada, era o que mais queria. Talvez porque baratos, algum dia ao seu alcance. Por que não agorinha mesmo, hem, por que não? Encheu-se de coragem e, decidida, acendeu um.

 

O fósforo lançou faísca, pegando tremeu e firmou-se na chama vermelha. A mão da criança tão desajeitada quanto ligeira, arqueou-se para abrigá-la. Como se fosse a luz de uma vela. Encarnada, viva, maravilhosa. E nele a menina se viu muito antes, bem pequena, a brincar no terreiro com uma fieira de bonecas de milho. O vento cantava pelas ramas do umbuzeiro, o mundo cheirava a curral. Era bonito e dava pena de saudade. Mas a vacilante chama se apagou, o quintal sumiu, e ficou-lhe entre os dedos o fósforo queimado.

 

Riscou outro, que ardeu azul. A sua chama, batendo na parede fronteira, a fez transparente feito um filó. Então ela pode ver a sala ao lado. Sobre a mesa grande, coberta com uma toalha alva como algodão, estavam os pratos postos, muitos, havia os conhecidos, os que não sabia, eram fartos e perfumosos. No centro, enchendo a travessa de prata, um imenso peru. E eles começaram a dançar, o peru e os pratos que o rodeavam, fizeram uma ciranda engraçada, gozada de trocha e maluca, aí o fósforo se findou, a cena também, ficou só a parede defronte encardida.

 

Acendeu o terceiro, verde brilhante, e logo se achou perto do presépio com todos os animais, os pastores, o menino e a manjedoura, as figurinhas dos santos, uma beleza de perfeição, e debaixo da maior e mais enfeitada árvore de Natal que jamais vira, cheia de luzes, de velas, com uma estrela dourada lá em cima, que foi só olhar e ela vir caindo, caindo, deixando na sua esteira um fogaréu de lágrimas.

 

– Morreu uma menina entendeu, porque o avô (a pessoa de quem mais gostava na vida e que já estava morto) uma vez lhe dissera: quando uma estrela cai, uma alma sobe pro céu.

 

Ela acendeu mais um fósforo e na sua luz amarela, como a de um candeeiro, apareceu o avô, claramente, luminoso, sorrindo aquele sorriso quieto.

 

Vô! – pediu a menina: – leve eu mais você.

 

Ela sabia que ele iria desaparecer, que sumiria quando o fósforo se apagasse. Como o terreiro, a comida, o presépio e a árvore de Natal.

 

E depressa foi acendendo, um a um, todos os fósforos da caixinha. E as suas luzes, de todas as cores, alumiaram tanto, e tanto, que a noite era um dia. E o avô nunca lhe pareceu tão grande e tão forte. Ele a tomou nos braços e os dois voaram, alegremente, por cima de rios e roçados, de lagoas e lajedos, de canaviais e canafístulas, até chegarem a uma região onde não havia mais fome.

 

No vão entre as duas casas, ficou sentada a menininha. Encostada à parede, um tanto pensa, como se fosse boneca. Mas com o vestido entalado entre as pernas, seu primeiro e último gosto de mulher.

 

O sol do Ano-novo se levantou sobre ela feito o fim, o derradeiro, um fósforo queimado.

 

– Que miséria! – pensavam os transeuntes.

 

Eles não haviam a tempo tirado os olhos e tinham visto. A menina morta, na manhã do novo ano. E passavam calados, cabisbaixos, tomados por uma ânsia repentina. De remorso, remoído. Os mais moços, entretanto, ainda se interrogavam: para onde vamos?

 

 

Fonte: RAMOS, Ricardo de Medeiros. Estação Primeira. São

Comentários

Releitura da pequena vendedora de fosfóros.

Keila Rackel Tavares | 22/04/2026 ás 20:25
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