Apenas no seu olhar
Não corrige
revela
Quando me olha
não sou passado
nem promessa
sou presente
Há dias em que o mundo pesa
e ainda assim
basta você me ver
para que eu respire melhor
Seu olhar me atravessa
como quem atravessa uma ponte
sem medo do outro lado
Nele
sou mais vivo
porque sou visto
Mais apaixonado
porque não preciso esconder
Mais humano
porque pertenço
Não a você
mas ao que nasce entre nós
Apenas no seu olhar
me realizo
Não como conquista
mas como encontro
E tudo o que sou
quando você me olha
permanece
Como se o amor
tivesse aprendido
a morar
em mim.
Classificação técnica:
- Gênero: Lírico
- Subgênero: Lírica amorosa existencial
- Forma: Verso livre com estrutura fragmentada
- Eixo temático: Reconhecimento, pertencimento e realização afetiva
O Olhar como Espaço de Existência
O poema “Apenas no seu olhar” insere-se no gênero lírico e configura-se como lírica amorosa contemporânea em verso livre, marcada por contenção expressiva, economia verbal e maturidade emocional. Trata-se de um texto que desloca o amor da declaração intensa para o campo do reconhecimento e da presença.
Desde os versos iniciais, “Não corrige / revela”, o poema estabelece um princípio central: o amor não é instância de julgamento, mas de revelação. Em apenas duas palavras, o texto inaugura um campo semântico que atravessará toda a composição: o olhar como ato de confirmação existencial.
A organização formal é um dos pontos de maior força do poema. Os versos são curtos, muitos deles isolados, o que produz pausas significativas. O ritmo não é construído por rima, mas por suspensão e respiração. A fragmentação não sugere ruptura; sugere contenção.
Esse procedimento formal transforma o silêncio em técnica. Cada quebra de verso funciona como espaço de interiorização. O poema não corre; ele se detém.
Um dos eixos mais significativos do texto está no verso:
“Nele / sou mais vivo / porque sou visto”
Aqui o poema toca uma dimensão filosófica da experiência amorosa: existir no olhar do outro. O amor não é apresentado como posse ou conquista, mas como reconhecimento.
O sujeito lírico afirma:
“Não a você / mas ao que nasce entre nós”
Esse deslocamento é decisivo. O pertencimento não é dependência. O poema recusa a fusão possessiva e opta por uma construção relacional. O amor é aquilo que surge no espaço entre.
Essa concepção aproxima-se de uma ética do encontro: o eu se constitui na relação, mas não se dissolve nela.
Outro aspecto relevante é a anulação das categorias temporais tradicionais:
“não sou passado / nem promessa / sou presente”
O amor aqui não é nostalgia nem projeção. Ele é presença. Essa escolha elimina dramatizações excessivas e situa o sentimento na concretude do agora.
A maturidade emocional do texto manifesta-se justamente nessa recusa do exagero. O poema não grita. Ele afirma com serenidade.
O verso:
“Apenas no seu olhar / me realizo”
não constrói dependência, mas confirmação. O sujeito não se reduz ao outro; ele se reconhece por meio do outro. A realização é relacional, não submissa.
E o encerramento é particularmente significativo:
“Como se o amor
tivesse aprendido
a morar
em mim.”
Aqui o amor deixa de ser evento externo e torna-se estado interno. Não é algo que acontece apenas no encontro; é algo que permanece. O verbo “morar” confere estabilidade e continuidade.
O poema opera com economia lexical e evita metáforas exuberantes. Não há excesso imagético. A força está na simplicidade estrutural e na coerência interna.
A repetição de construções paralelas, “Mais vivo”, “Mais apaixonado”, “Mais humano”, cria cadência e reforça a progressão emocional. O texto cresce em intensidade sem elevar o volume.
A ausência de aconselhamento ou declaração enfática revela maturidade estética. O poema escreve para compreender, não para convencer.
“Apenas no seu olhar” é um exemplo de lírica amorosa que privilegia o reconhecimento e a presença como fundamentos da experiência afetiva. Sua força não está na dramatização, mas na serenidade com que constrói pertencimento.
O amor não é apresentado como conquista, nem como ausência dolorosa, mas como revelação silenciosa. O olhar, nesse contexto, torna-se espaço de existência.
Trata-se de um poema que compreende que intensidade não exige ruído. Exige verdade.
Fonte: Antologia Entre o toque e o silêncio