Dieta da mente: o que temos oferecido aos nossos pensamentos?

Dolores Flor
Publicado em 09 de Setembro de 2026 ás 16h 19min

Em uma sociedade atravessada pelo excesso de informações, pela pressa e pela competição, selecionar o que ocupa nossa atenção tornou-se uma forma de cuidado, consciência e preservação interior.

 

Há dias em que o corpo finalmente se senta, mas a mente continua correndo. Ela atravessa notícias, mensagens, compromissos, comparações, imagens e preocupações que nem sequer escolheu guardar. Quando a noite chega, existe cansaço, embora nem sempre seja possível reconhecer sua origem. Talvez uma parte dessa exaustão nasça do excesso de conteúdos que consumimos sem tempo suficiente para compreendê-los, questioná-los ou transformá-los em experiência.

 

Nunca tivemos acesso tão rápido a tantas informações. Entretanto, estar informado não significa, necessariamente, ter conhecimento. A informação chega; o conhecimento precisa ser elaborado. Para transformar aquilo que recebemos em compreensão, necessitamos de atenção, silêncio, memória, reflexão e tempo. Quando esses espaços desaparecem, podemos saber um pouco sobre muitas coisas e, ainda assim, sentir que não compreendemos profundamente quase nenhuma delas.

 

Foi Herbert A. Simon, pesquisador reconhecido por seus estudos sobre tomada de decisão, quem percebeu uma das grandes contradições da sociedade informacional: quanto maior a quantidade de informações disponível, mais escassa se torna a atenção necessária para recebê-las. Em outras palavras, a abundância de conteúdo não amplia automaticamente nossa capacidade de pensar. Ao contrário, pode fragmentá-la. Sua reflexão, apresentada em 1971, tornou-se ainda mais atual diante das redes sociais, notificações e plataformas que disputam continuamente nosso olhar (SIMON, 1971).

 

É nesse contexto que podemos pensar metaforicamente em uma dieta da mente. Assim como o corpo responde aos alimentos que recebe, nossa vida interior também é influenciada pelas palavras, imagens, conversas, notícias e ambientes que frequentamos. Isso não significa que uma pessoa deva viver isolada, ignorar os problemas do mundo ou alimentar-se apenas de conteúdos agradáveis. Significa desenvolver discernimento para reconhecer o que informa, o que forma, o que deforma e o que apenas ocupa espaço.

 

 

Nossa atenção não é ilimitada. Ela se cansa, oscila e precisa de intervalos. A pesquisadora Gloria Mark, professora da Universidade da Califórnia, investiga há décadas a relação entre atenção, tecnologias digitais, interrupções e estresse. Seus estudos mostram que as pessoas mudam frequentemente o foco enquanto utilizam telas e que a alternância constante entre tarefas possui custos cognitivos e emocionais. A questão, portanto, não é apenas quanto tempo permanecemos conectados, mas o modo fragmentado como passamos de um estímulo para outro. A própria pesquisadora adverte que não existe uma solução única ou simplesmente baseada em força de vontade; o ambiente tecnológico também participa da organização e da captura da atenção.

 

Essa fragmentação pode ser observada em situações comuns: começamos a ler um texto, interrompemos a leitura para responder a uma mensagem, abrimos outra página, assistimos a um vídeo e, poucos minutos depois, já não sabemos exatamente o que procurávamos. A mente esteve ativa durante todo o período, mas atividade não é sinônimo de profundidade. Muitas vezes, o que parece produtividade é apenas movimentação.

 

Byung-Chul Han ajuda a compreender outra dimensão desse fenômeno. Em Sociedade do cansaço, o filósofo analisa uma época orientada pelo desempenho, pela produtividade e pela exigência de superação constante. O indivíduo contemporâneo não se sente apenas cobrado por forças externas; ele aprende a cobrar continuamente de si mesmo. Precisa produzir, aparecer, responder, atualizar-se, competir e demonstrar resultados. Até o descanso corre o risco de ser transformado em tarefa (HAN, 2017).

 

Sob essa lógica, a mente raramente recebe permissão para estar em silêncio. Quando não estamos trabalhando, sentimos que deveríamos aprender alguma coisa. Quando lemos, pensamos que deveríamos produzir. Quando descansamos, somos atravessados pela impressão de que alguém está avançando enquanto permanecemos parados. A comparação transforma a vida alheia em medida para a nossa existência, embora vejamos apenas recortes cuidadosamente selecionados do caminho dos outros.

 

Fazer uma dieta da mente não significa controlar todos os pensamentos nem estabelecer uma obrigação permanente de positividade. Existem dores que precisam ser reconhecidas, perguntas que não encontram respostas imediatas e notícias difíceis que fazem parte da realidade. O cuidado mental não consiste em negar aquilo que incomoda, mas em evitar que o excesso nos retire a capacidade de compreender o que sentimos.

 

António Damásio demonstra que sentimentos, corpo e consciência estão profundamente relacionados. Em Sentir e saber: as origens da consciência, o neurocientista explica que os sentimentos participam da experiência consciente e da maneira como o organismo percebe sua própria condição. Essa compreensão afasta a ideia de que pensar seria uma atividade completamente separada do corpo: cansaço, medo, ansiedade, acolhimento e segurança também atravessam nossa maneira de interpretar o mundo (DAMÁSIO, 2022).

 

Por isso, o conteúdo consumido não permanece apenas como informação abstrata. Algumas palavras alteram nosso estado emocional; determinadas imagens prolongam inquietações; certas conversas continuam reverberando muito depois de terminadas. Há conteúdos que nos esclarecem, outros que nos mobilizam e alguns que apenas nos deixam em estado permanente de alerta.

 

Selecionar não é tornar-se indiferente. É perguntar: isso precisa chegar até mim agora? Tenho condições emocionais para receber esse conteúdo? Ele acrescenta compreensão ou apenas alimenta medo, revolta e comparação?

 

Nesse cenário, a literatura ocupa um lugar especial. Ela não oferece a mesma rapidez das informações fragmentadas. Um poema exige pausa. Um conto pede que o leitor acompanhe uma experiência. Um romance solicita permanência. A leitura literária cria uma temporalidade diferente daquela que domina as telas: em vez de saltarmos imediatamente para o próximo estímulo, somos convidados a permanecer diante de uma palavra, de uma personagem, de um silêncio ou de uma pergunta.

 

Maryanne Wolf, estudiosa da leitura e do cérebro, explica que o cérebro humano não nasce programado para ler. A leitura é uma aprendizagem cultural que reorganiza diferentes circuitos cerebrais. Em O cérebro no mundo digital, a autora reflete sobre os desafios que a cultura das telas apresenta à leitura profunda, aquela que favorece processos como inferência, análise, empatia e reflexão crítica (WOLF, 2019). A obra está registrada no catálogo oficial da Editora Contexto.

 

Isso não significa que toda leitura digital seja superficial nem que o livro impresso, sozinho, resolva os problemas da atenção. O ponto central está no modo de ler. É possível percorrer páginas sem verdadeiramente encontrá-las, assim como é possível realizar uma leitura profunda em uma tela. No entanto, ambientes repletos de notificações, links e estímulos simultâneos podem dificultar a permanência necessária à compreensão mais demorada.

 

A literatura devolve espessura à experiência. Enquanto a velocidade oferece respostas antes que formulemos perguntas, o texto literário preserva ambiguidades, silêncios e sentidos que não se entregam imediatamente. Ler, nesse contexto, é também recuperar o direito de não passar depressa por tudo.

 

Uma dieta da mente não precisa começar com grandes proibições. Pode nascer de escolhas pequenas: não tocar no telefone nos primeiros minutos do dia; estabelecer horários para acompanhar notícias; desligar notificações desnecessárias; selecionar melhor os perfis seguidos; reservar um período para ler sem interrupções; caminhar sem produzir conteúdo sobre a caminhada; escrever para compreender uma emoção, não apenas para publicá-la.

 

Também precisamos observar as palavras que oferecemos aos outros. Somos responsáveis não somente pelo que consumimos, mas pelo que colocamos em circulação. Uma frase pode informar, ferir, manipular, acolher ou devolver esperança. Em um ambiente saturado de opiniões imediatas, talvez uma das atitudes mais maduras seja permitir que algumas palavras atravessem primeiro o silêncio antes de alcançarem o mundo.

 

Para leitores e escritores, essa escolha possui um sentido ainda mais profundo. Quem escreve também se alimenta do que lê, escuta, observa e contempla. Uma escrita que permanece dificilmente nasce de uma mente ocupada apenas por urgências. A criação precisa de repertório, mas também de intervalo. Precisa de conhecimento, mas igualmente de quietude. Precisa de contato com o mundo, mas necessita de um espaço interior no qual esse mundo possa ser transformado.

 

O prato diário da mente

 

Uma prática possível pode reunir:

  • alguns minutos de silêncio;
  • uma leitura realizada sem interrupções;
  • menos conteúdos baseados em comparação;
  • uma conversa que acolha e amplie o pensamento;
  • um momento de escrita pessoal;
  • contato com arte, natureza ou música;
  • uma escolha consciente sobre aquilo que não merece permanecer.

 

Não se trata de criar mais uma cobrança em uma rotina já cansada. Trata-se de recuperar alguma liberdade diante daquilo que disputa nossa atenção. Nem toda informação merece entrada imediata. Nem toda opinião precisa tornar-se diálogo. Nem toda urgência apresentada pelo mundo precisa transformar-se em urgência interior.

 

Talvez cuidar da mente seja aprender a selecionar aquilo que nos ajuda a pensar com mais clareza, sentir com mais consciência e viver com maior presença. Porque a mente também se alimenta. E aquilo que oferecemos continuamente a ela participa, silenciosamente, da pessoa que estamos nos tornando.

 

Nem tudo o que chega aos nossos olhos precisa encontrar morada em nossa mente. Cuidar do pensamento também é escolher o que merece permanecer.

 

Dolores Flor
Mestra em Letras, especialista em Neurociências e Análise do Comportamento Humano, escritora, poetisa, editora, pesquisadora, curadora e formadora literária.

Dolores Flor – Mais que escrever, formar permanência.

 

Referências

DAMÁSIO, António. Sentir e saber: as origens da consciência. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

 

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2. ed. ampl. Petrópolis: Vozes, 2017.

 

MARK, Gloria. Attention span: a groundbreaking way to restore balance, happiness and productivity. Toronto: Hanover Square Press, 2023.

 

SIMON, Herbert A. Designing organizations for an information-rich world. In: GREENBERGER, Martin (org.). Computers, communications, and the public interest. Baltimore: Johns Hopkins Press, 1971. p. 37-72.

 

WOLF, Maryanne. O cérebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era. Tradução de Rodolfo Ilari e Mayumi Ilari. São Paulo: Contexto, 2019.

 

 

 

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