Entre a intensidade e a permanência

Dolores Flor
Publicado em 21 de Fevereiro de 2026 ás 17h 17min

Há amores que nascem como incêndio. Não pedem licença, não calculam consequências, não se explicam. Apenas acontecem. Instalam-se no corpo como música antiga que não se esquece, como perfume que insiste mesmo depois que a porta se fecha. A intensidade tem essa natureza ardente: ela não precisa de convivência para sobreviver. Vive de memória, de imaginação, de possibilidades que não se cumpriram, mas que continuam brilhando como se ainda fossem presentes.

 

A poesia amorosa conhece bem essa chama. Ela sabe falar do que pulsa mesmo à distância, do que permanece mesmo sem presença, do que atravessa os anos sem perder o calor. Há sentimentos que se conservam porque nunca foram submetidos ao peso do cotidiano. Não enfrentaram as pequenas imperfeições da rotina, não foram testados pela repetição dos dias comuns. Permaneceram íntegros porque habitaram o território da evocação.

 

Mas a vida não é feita apenas de evocação.

 

Existe um outro tipo de amor, menos ruidoso, menos fulgurante, que não vive apenas de intensidade. Vive de escolha. E escolha é gesto concreto. Escolher é permanecer quando o encanto já não é novidade, é sustentar quando o brilho inicial se transforma em construção. Escolher é dar forma ao sentimento, tirá-lo do campo da possibilidade e colocá-lo no chão da realidade.

 

Entre sentir e escolher existe um espaço delicado onde a maturidade se revela. Sentir é espontâneo. Escolher é consciente. Sentir pode ser eterno na memória. Escolher exige presença no presente. E toda escolha carrega consigo a sombra da renúncia. Não há decisão que não deixe algo para trás.

 

A poesia amorosa amadurece quando compreende essa diferença. Nem todo amor que arde está destinado a se tornar permanência. Nem toda permanência nasce de um incêndio. Às vezes o que permanece é justamente aquilo que não se concretizou, porque ficou guardado como joia rara, preservado do desgaste do mundo.

 

Mas há também o amor que aceita o risco de existir fora do sonho. O amor que se dispõe a enfrentar as manhãs sem poesia, as conversas difíceis, os dias comuns. Esse amor não é menor. É apenas mais responsável. Ele não vive apenas da intensidade do sentir; vive da coerência entre sentir e decidir.

 

A condição humana se move entre essas duas forças. Somos feitos de desejos que ardem e de escolhas que estruturam. Somos feitos de memórias que iluminam e de decisões que transformam. Em cada trajetória existe essa pergunta silenciosa: o que deve permanecer como chama interior… e o que deve se tornar presença concreta?

 

Não se trata de julgar a intensidade nem de exaltar a decisão. Trata-se de reconhecer que amar também é escolher. E que escolher é um ato que redefine não apenas o destino de um sentimento, mas o modo como se habita o mundo.

 

Talvez o maior gesto de maturidade na experiência amorosa não seja apenas sentir profundamente, mas discernir quando o sentimento deve permanecer como memória luminosa e quando ele pede coragem para se tornar realidade.

 

Porque no fim, o amor não se mede apenas pelo quanto arde,
mas pelo quanto sustenta.

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