Ousadia


Publicado em 28 de Abril de 2026 ás 16h 32min

A moça ia no ônibus muito contente desta vida, mas, ao saltar, a contrariedade se anunciou:

 

— A sua passagem já está paga — disse o motorista.

 

— Paga por quem?

 

— Esse cavalheiro aí.

 

E apontou um mulato bem vestido que acabara de deixar o ônibus, e aguardava com um sorriso junto à calçada.

 

— E algum engano, não conheço esse homem. Faça o favor de receber.

 

— Mas já está paga...

 

— Faça o favor de receber! - insistiu ela, estendendo o dinheiro e falando bem alto para que o homem ouvisse:— Já disse que não conheço! Sujeito atrevido, ainda fica ali me esperando, o senhor não está vendo? Vamos, faço questão que o senhor receba minha passagem.

 

O motorista ergueu os ombros e acabou recebendo: melhor para ele, ganhava duas vezes.

 

A moça saltou do ônibus e passou fuzilando de indignação pelo homem.

 

Foi seguindo pela rua, sem olhar para ele.

 

Se olhasse, veria que ele a seguia, meio ressabiado, a alguns passos.

 

Somente quando dobrou à direita para entrar no edifício onde morava, arriscou uma espiada: lá vinha ele! Correu para o apartamento, que era no térreo, pôs-se bater, aflita:

 

— Abre! Abre aí!

 

A empregada veio abrir e ela irrompeu pela sala, contando aos pais atônitos, em termos confusos, a sua aventura:

 

— Descarado, como é que tem coragem? Me seguiu até aqui!

 

De súbito, ao voltar-se, viu pela porta aberta que o homem ainda estava lá fora, no saguão. Protegida pela presença dos pais, ousou enfrentá-lo:

 

— Olha ele ali! É ele, venham ver! Ainda está ali, o sem-vergonha. Mas que ousadia!

 

Todos se precipitaram para a porta. A empregada levou as mãos à cabeça:

 

— Mas a senhora, como é que pode! É o Marcelo.

 

— Marcelo? Que Marcelo? — a moça se voltou, surpreendida.

 

Marcelo, o meu noivo. A senhora conhece ele, foi quem pintou o apartamento.

 

A moça só faltou morrer de vergonha:

 

— É mesmo, é o Marcelo! Como é que eu não reconheci! Você me desculpe, Marcelo, por favor.

 

No saguão, Marcelo torcia as mãos, encabulado:

 

— A senhora é que me desculpe, foi muita ousadia...

 

Fonte: (F.S.)

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