Síntese didática do encontro de 19 de setembro de 2026
Publicado em 21 de Setembro de 2026 ás 10h 31min
Quando a palavra desaprende o costume
Síntese didática do 3º encontro das Manhãs Literárias
Clube de Leitura Família Literária
Obra em leitura: Memórias inventadas
Autor: Manoel de Barros
Data: 19 de setembro de 2026
Tema do encontro: Invenção, linguagem e valorização das pequenas coisas
Neste encontro, aprendemos que Manoel de Barros modifica as relações habituais entre as palavras para renovar nossa maneira de enxergar o mundo.
Apresentação
No terceiro encontro das Manhãs Literárias, continuamos nossa travessia por Memórias inventadas, de Manoel de Barros. Depois de compreendermos a relação entre infância, memória e imaginação, voltamos nossa atenção para o modo como o autor trabalha a linguagem, retirando palavras, objetos e seres de seus lugares habituais para criar novas possibilidades de sentido.
A leitura foi conduzida por uma pergunta central: o que acontece quando a palavra deixa de obedecer ao costume?
Em Manoel de Barros, a poesia nasce desse deslocamento. O autor não se limita a descrever a natureza, a infância ou os objetos presentes em suas lembranças. Ele modifica as relações entre as coisas, atribui movimentos ao que parecia imóvel, ressignifica palavras usadas como julgamento e oferece importância literária aos restos, aos pequenos seres e aos objetos abandonados.
Durante o encontro, lemos e discutimos quatro textos: “Oficina”, “Bocó”, “Nomes” e “Latas”. Embora apresentem situações diferentes, todos participam de um mesmo gesto poético: libertar a linguagem das classificações prontas e ensinar o leitor a enxergar novamente.
Objetivos do encontro
- Aprofundar a leitura de Memórias inventadas.
- Compreender como Manoel de Barros recria a realidade pela linguagem.
- Identificar imagens poéticas e deslocamentos de sentido.
- Refletir sobre a valorização das coisas pequenas e consideradas inúteis.
- Relacionar leitura, memória e produção escrita.
- Reconhecer a presença da imagem, da emoção e da sutileza nos textos.
Antes de continuar
No encontro anterior, percebemos que, em Memórias inventadas, lembrar não significa reproduzir fielmente o passado. A memória é atravessada pela imaginação e recriada pela linguagem.
Também compreendemos que a escrita de Manoel de Barros não deve ser definida apenas como descritiva. O poeta parte de elementos concretos, como rios, pedras, insetos, árvores, quintais e objetos antigos, mas transforma esses elementos em experiências poéticas.
Leituras do 3º encontro
“Oficina”: desregular para voltar a enxergar
Em “Oficina”, o narrador e seu amigo desejam criar uma Oficina de Desregular a Natureza. Sem recursos para alugar um espaço, instalam-se em uma gruta e começam a produzir seres, objetos e imagens que não obedecem à lógica convencional.
A oficina não fabrica coisas destinadas a uma função prática. Ela produz imagens poéticas. Besouros, lírios, borboletas, pregos, parafusos, alicates e latas recebem características inesperadas. Objetos duros adquirem delicadeza, ferramentas produzem sons vegetais e elementos da natureza assumem comportamentos humanos.
Desregular, nesse contexto, não significa destruir. Significa retirar as coisas de uma ordem previsível para que possam ser vistas de outro modo. A oficina imaginada representa o próprio trabalho do poeta: recolher palavras conhecidas, desmontar suas combinações habituais e reorganizá-las até que expressem algo novo.
A referência a Picasso reforça essa interpretação. O pintor reorganizava as formas para propor outras maneiras de ver. Manoel de Barros realiza procedimento semelhante com a linguagem: desloca as palavras para produzir estranhamento e renovar a percepção do leitor.
“Bocó”: uma palavra encontra nova dignidade
Em “Bocó”, um homem passa horas recolhendo caracóis e pedrinhas à margem do rio. Ao observá-lo, Nhá Velina Cuê chama-o de bocó, palavra que, no uso comum, pode designar alguém ingênuo, tolo, distraído ou simplório.
O personagem, entretanto, não permanece preso ao sentido depreciativo. Ele procura a palavra em seus dicionários e encontra definições poéticas que aproximam o bocó da infância, das águas, das árvores, dos pássaros e dos pequenos seres.
O texto realiza uma inversão importante. O que poderia funcionar como insulto transforma-se em reconhecimento. Ser bocó passa a significar conservar a curiosidade, a sensibilidade e a capacidade de perceber aquilo que o mundo adulto considera sem importância.
A ideia de alguém “acrescentado de criança” não indica imaturidade. Representa a permanência de um olhar inaugural, capaz de imaginar relações ainda não limitadas pela lógica. Ao final, o personagem passa a estimar a si mesmo. A palavra que poderia diminuí-lo oferece-lhe outra maneira de compreender sua identidade.
“Nomes”: o dicionário da infância
Em “Nomes”, o eu poético procura recordar as palavras que formavam o pequeno dicionário de sua infância. Água, pedras, chão, árvore, pássaros, rã, sol, borboletas, mosca, lata, lesma e lacraia compõem esse vocabulário primordial.
O número reduzido de palavras não representa pobreza. Cada nome concentra uma experiência concreta, afetiva e sensorial. Antes de conhecer as definições escolares, o menino conheceu essas coisas pela convivência com o quintal, a terra, os rios e os pequenos seres.
Nesse dicionário, não existe uma separação rígida entre natureza e objeto fabricado. A lata, embora não tenha a mesma origem da água, da pedra ou da árvore, participa do universo infantil com força semelhante. Ela foi vista, tocada e incorporada às brincadeiras. Por isso, também se torna uma palavra de raiz afetiva.
Os rios são apresentados como verbais porque escrevem suas curvas na paisagem. Da mesma maneira, lesmas e lacraias tornam-se substantivos verbais: possuem nomes, mas já trazem o movimento dentro de si. O poeta mistura categorias gramaticais para mostrar que a linguagem literária pode ultrapassar as divisões convencionais.
Ao afirmar que esses nomes fertilizaram sua linguagem, Manoel de Barros aproxima as palavras da terra. Água, chão, árvore, lata e pequenos animais não permaneceram apenas como lembranças. Tornaram-se a matéria inicial de sua escrita.
“Latas”: do descarte ao pertencimento
Em “Latas”, um objeto produzido pela indústria, usado e depois descartado passa por um lento processo de transformação. Abandonada no chão, a lata sofre a ação do tempo, da umidade, da ferrugem, da terra e dos pequenos seres.
Para integrar-se à natureza, ela precisa perder as marcas de sua antiga função. A ferrugem, geralmente entendida como sinal de deterioração, passa a marcar a transição entre dois estados: o objeto fabricado para o consumo e a matéria que retorna à terra.
O texto questiona nossa compreensão de valor. Enquanto possui utilidade comercial, a lata pertence ao mundo da produção. Quando é descartada, perde seu valor econômico. É justamente nesse momento, porém, que começa a adquirir importância para a poesia.
Em Manoel de Barros, o abandono não representa apenas o fim. O objeto abandonado pode estabelecer novas relações com a terra, as plantas, os insetos e o tempo. Aquilo que deixou de servir aos seres humanos começa a participar de outras formas de existência.
Os quatro movimentos da leitura
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Texto |
Movimento poético |
Aprendizagem |
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“Oficina” |
Desregula as relações entre objetos, seres e características. |
A poesia pode criar outras possibilidades para o mundo. |
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“Bocó” |
Ressignifica uma palavra usada como julgamento. |
A linguagem pode reconstruir a identidade e conceder dignidade. |
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“Nomes” |
Recupera o vocabulário primordial da infância. |
As primeiras experiências fertilizam a linguagem do escritor. |
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“Latas” |
Transforma o objeto descartado em matéria poética. |
O que perde a utilidade pode encontrar pertencimento na natureza e na literatura. |
Chaves de leitura
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Recurso |
Como aparece nos textos |
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Ressignificação |
Palavras e objetos recebem novos valores. |
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Personificação |
Elementos da natureza e objetos adquirem atitudes humanas. |
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Metáfora |
Uma coisa passa a representar ou revelar outra experiência. |
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Paradoxo |
Ideias aparentemente contrárias produzem novos sentidos. |
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Estranhamento |
Combinações inesperadas retiram o leitor do olhar habitual. |
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Metalinguagem |
O texto reflete sobre as palavras e o próprio ato de escrever. |
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Enumeração |
A sequência de elementos produz ritmo e amplia as imagens. |
Pequeno glossário
Metáfora: aproximação entre elementos sem apresentar uma comparação direta.
Personificação: atribuição de ações, sentimentos ou características humanas a seres, objetos ou elementos da natureza.
Paradoxo: união de ideias aparentemente contraditórias para expressar um sentido mais profundo.
Metalinguagem: uso da linguagem para refletir sobre ela mesma ou sobre o processo de criação.
Ressignificação: atribuição de um novo sentido a uma palavra, objeto ou experiência.
Estranhamento: efeito produzido quando a linguagem rompe o uso comum e faz o leitor perceber algo de uma maneira diferente.
A gramática inventada de Manoel de Barros
Podemos chamar de gramática inventada o modo como Manoel de Barros altera as relações convencionais entre palavras, objetos, movimentos e características.
Em sua escrita, nomes podem carregar ações, rios podem escrever, objetos podem sentir, restos podem ganhar centralidade e palavras depreciativas podem transformar-se em formas de pertencimento.
Essas construções não resultam do desconhecimento da língua. São escolhas estéticas conscientes. O poeta desorganiza a linguagem habitual para que o leitor também reorganize sua maneira de perceber o mundo.
Diante de uma expressão inesperada, não encontramos imediatamente um significado pronto. Precisamos imaginar, relacionar e participar da criação do sentido.
A prosa poética
Os textos de Memórias inventadas apresentam frases, parágrafos, narradores, personagens e pequenas situações, aproximando-se formalmente da prosa. Entretanto, são construídos com imagens, ritmo, metáforas, sonoridade, emoção e abertura de sentidos.
Prosa poética é o texto organizado em frases e parágrafos, mas conduzido pela intensidade, pelas imagens e pela liberdade expressiva da poesia.
Imagem, emoção e sutileza
Imagem
Manoel de Barros faz o leitor visualizar besouros, lírios, caracóis, pedras, árvores, rios, lesmas e latas enferrujadas. Mesmo quando uma situação é impossível no sentido literal, ela adquire existência dentro da imaginação.
Emoção
A emoção não é declarada diretamente. Ela nasce do encantamento diante do simples, da lembrança da infância e do acolhimento daquilo que foi rejeitado, diminuído ou abandonado.
Sutileza
O poeta não oferece interpretações fechadas. As imagens permanecem abertas e permitem que cada leitor participe da criação do sentido a partir da própria experiência.
O que o escritor pode aprender com essas leituras
- Observar aquilo que costuma passar despercebido.
- Retirar objetos de suas funções habituais.
- Criar relações inesperadas entre palavras conhecidas.
- Transformar conceitos abstratos em imagens concretas.
- Utilizar a memória como matéria de invenção.
- Substituir a declaração direta do sentimento por uma imagem capaz de despertá-lo.
- Evitar explicar completamente o texto.
- Confiar na participação interpretativa do leitor.
- Compreender que simplicidade vocabular não significa pobreza de linguagem.
- Reconhecer que uma coisa comum pode adquirir profundidade quando recebe um olhar singular.
Atividade para leitores e escritores
Para os leitores
Escolha uma imagem dos textos estudados e escreva um pequeno comentário respondendo:
- O que você conseguiu visualizar?
- Que sentimento essa imagem despertou?
- Que sentido permaneceu nas entrelinhas?
Para os escritores
Escolha um objeto cotidiano, antigo, esquecido ou aparentemente sem importância:
- uma chave;
- uma xícara;
- um botão;
- uma colher;
- uma folha seca;
- um sapato;
- uma lata;
- uma pedra;
- um pedaço de barbante;
- uma fotografia antiga.
Escreva de três a cinco linhas, atribuindo ao objeto uma ação, uma lembrança, um sentimento ou uma característica inesperada. Não explique diretamente a emoção. Permita que ela apareça por meio da imagem.
Exemplo:
A chave envelhecia no fundo da gaveta.
Ainda guardava nos dentes
a lembrança de uma porta
que a casa havia esquecido.
Após a escrita, observe:
- Qual imagem foi construída?
- A emoção foi declarada ou sugerida?
- O texto deixou alguma abertura para o leitor?
Perguntas para reflexão
- O que significa desregular a natureza pela linguagem?
- Como uma palavra usada como julgamento pode receber outro sentido?
- O que representa ser alguém “acrescentado de criança”?
- Quais palavras formariam o dicionário de sua infância?
- Como um rio pode ser verbal?
- Por que a lata recebe importância na escrita de Manoel de Barros?
- O que acontece com um objeto quando ele perde sua utilidade?
- Qual é a diferença entre descrever uma coisa e recriá-la poeticamente?
- De que maneira a poesia modifica nosso olhar sobre o cotidiano?
- Qual dos quatro textos mais alterou sua maneira de perceber as pequenas coisas?
O que levamos deste encontro
O terceiro encontro das Manhãs Literárias mostrou que a escrita de Manoel de Barros nasce de um gesto de liberdade. Em “Oficina”, o poeta desregula as relações entre as coisas; em “Bocó”, transforma uma palavra de desprezo em expressão de sensibilidade; em “Nomes”, recupera o vocabulário que fertilizou sua linguagem; e, em “Latas”, acompanha a transformação de um objeto descartado até sua integração à terra.
Os quatro textos revelam que a poesia pode nascer daquilo que o mundo ignora, abandona ou considera sem serventia. Quando a palavra desaprende o costume, o pequeno deixa de ser insignificante, o julgamento pode se transformar em pertencimento e o descarte pode encontrar outra forma de existência.
Manoel de Barros nos ensina que escrever não consiste apenas em procurar palavras bonitas. Escrever é estabelecer relações capazes de renovar o olhar. A literatura começa quando deixamos de perguntar somente para que uma coisa serve e passamos a observar o que ela guarda, o que ela recorda e o que ainda pode se tornar.
Talvez seja essa uma das grandes aprendizagens de Memórias inventadas: a poesia não está distante da vida. Ela permanece escondida nas coisas comuns, esperando um olhar que saiba reconhecê-la.
Meta da semana
Escolha um objeto comum de seu cotidiano e anote três maneiras diferentes de percebê-lo, sem mencionar sua utilidade habitual.
Depois, transforme uma dessas percepções em um pequeno texto poético, procurando construir:
- uma imagem que o leitor consiga visualizar;
- uma emoção que não precise ser explicada;
- um sentido que permaneça nas entrelinhas.
Manhãs Literárias
Clube de Leitura Família Literária
Palavras que acolhem, inspiram e permanecem.