A cadeira junto à janela
| Crônica | 2026/05 Antologia Dias escritos em prosa | Manoel R. LeitePublicado em 04 de Junho de 2026 ás 17h 13min
Madeira escura, braços arredondados, encosto de palha e uma pequena marca na lateral direita, lembrança de algum móvel arrastado sem cuidado durante uma. Permanecia no mesmo lugar, voltada para a rua, perto o bastante da cortina.
Minha mãe costumava sentar-se ali depois do almoço. Não importava se ainda havia pratos sobre a mesa ou roupas esquecidas no varal. Escolhia a cadeira, colocava a xícara de café sobre o parapeito e olhava a rua durante alguns minutos. Às vezes, demorava mais. Acompanhava o mundo em sua passagem discreta.
Certa tarde, perguntei por que ela não levava a cadeira para a varanda. De lá, poderia observar toda a rua, sentir melhor o vento e conversar com quem passasse diante do portão.
Ela segurou a xícara com as duas mãos e permaneceu em silêncio por alguns segundos.
_ Na varanda, a gente precisa cumprimentar todo mundo. Aqui posso apenas olhar.
Quando voltei à casa, percebi primeiro o silêncio repousado sobre os móveis, instalado entre os quadros da parede e as xícaras guardadas na cristaleira.
A cadeira permanecia no mesmo canto. Por um instante, esperei encontrá-la ocupada
Aproximei-me. Passei a mão sobre o encosto. A madeira conservava uma lisura morna.
Sentei-me. A cadeira rangeu com a mesma voz baixa de outros tempos. A cortina tocou meu braço. Do lado de fora, a rua seguia ocupada com seus assuntos.
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A crônica de Manoel Leite é um texto íntimo e nostálgico onde carrega uma sensibilidade profunda sobre o tempo, a memória e a ausência!