A Caneta

| | 2026/06 Antologia Versos de raiz e chão | Gilmair Ribeiro da Silva
Publicado em 21 de Junho de 2026 ás 18h 43min

Numa noite de repente,
Sem aviso ou explicação,
apagam-se intermitente
As luzes, silenciando o salão.
Das festas então enlutado,
O caos rompendo o segredo,
Num céu cinzento e pesado
Cobrindo a cidade de medo.

E no breu da madrugada,

Sem ninguém pra socorrer,

A cidade amedrontada

Já nem sabe o que fazer.

Entre sombras e lamento,

Ecoa um grito perdido,

E o vento traz no momento

Um presságio não ouvido.

 

Parecia um túmulo permanente,

Sem tampa, frio e profundo,

Engolindo a nossa gente,

Silenciando todo o mundo.

Setecentas mil tristezas

Num suspiro se espalharam,

E as risadas de outros tempos

Em desespero se tornaram.

 

Das nuvens baixas e escuras,

Que à esperança consumiam,

Nasceram forças estranhas

Que a calma dissolvia...

E das catacumbas fria,

Se ergueram os sem paz,

Mortos que nunca dormiram,

Voltando a assustar os demais.

 

E junto vinha a figura,

De origem sem explicação,

Criatura feita de sombra

E de antiga escuridão.

Mitônoma presença fria,

Dos recantos da ilusão,

Gerada em segredos fundos

Da mais íntima prisão.

 

Invadiu ruas e praças,

Tomou mente e multidão,

Criando hordas dispersas

Sem rumo e direção.

E grupos se espalharam

Por todo o vasto país,

Cada qual com novo nome,

Negando o que já se diz.

 

Dizem que veio de longe,

Num disco a cortar o ar,

Mas sua forma grotesca

Fazia o medo brotar:

Cabeça era de jumento,

Corpo bruto, colossal,

Como um monstro pré-histórico

Num formato anormal.

 

Carregava em si desejos

E mitos distorcidos,

Instintos abrasileirados

E ideais corrompidos.

De costas era um armário,

Gigante a dominar,

Espalhando suas ideias

Sem ninguém questionar.

 

Pregava que a felicidade

Só viria, afinal,

Se destruísse o sistema,

O costume e o ancestral.

Instituições se enfraqueceram

E as regras quis refazer,

Nem armas nem as prisões

O puderam conter.

 

Quando tudo parecia

Sem solução, sem saída,

E a causa já se perdia

Numa derrota sentida,

Veio então uma virada

Que ninguém imaginou:

Não foi força, foi palavra

Que o monstro derrotou.

 

Era lenda poderosa,

De valor e direção,

Que guiava firme o povo

Pela força da razão.

E onde a força falhava

E o braço não alcançava,

Foi o risco de uma caneta

Que a vitória selava.

 

Numa noite, de repente,

Sem aviso ou explicação,

Apagam-se intermitentes

As luzes do salão.

As festas em luto e tormento

Logo se transformaram,

E um céu pesado e cinzento

Sobre a cidade pairaram.

Comentários

Olá! Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies.