Na borda do silêncio, onde o vento parecia folhear o mundo como um livro antigo, existia uma cidade feita de papel.

Suas casas eram dobraduras delicadas, com telhados em forma de versos e janelas recortadas como estrofes. As ruas não eram de pedra, mas de páginas — algumas lisas, outras marcadas por histórias já vividas. Quando alguém caminhava, ouvia-se um leve sussurro, como se cada passo despertasse palavras adormecidas.

Nessa cidade, a poesia não era apenas escrita — ela brilhava.

À noite, quando o céu escurecia, não havia postes nem lâmpadas. Eram os poemas que iluminavam tudo. Cada verso aceso pairava no ar como pequenas lanternas vivas, lançando luz suave sobre as esquinas. Havia poemas alegres, que cintilavam em dourado, e poemas tristes, que brilhavam em azul profundo, como lágrimas transformadas em estrelas.

Entre os habitantes, vivia uma jovem chamada Lira.

Ela tinha o hábito de colecionar palavras perdidas. Caminhava pelas ruas recolhendo sílabas esquecidas, metáforas quebradas e rimas solitárias. Guardava tudo em uma caixa de origami que carregava junto ao peito. Diziam que Lira conseguia ouvir o que ninguém mais ouvia — o eco das palavras que ainda não haviam sido ditas.

Mas havia um problema.

A cidade estava apagando.

A cada dia, menos poemas surgiam no céu. As luzes enfraqueciam, e algumas ruas já mergulhavam em sombras silenciosas. As pessoas, antes cheias de versos, agora falavam pouco. Tinham medo de gastar suas palavras, como se o silêncio fosse mais seguro que o sentir.

Lira percebeu que não era a cidade que estava morrendo — eram as emoções.

Sem sentimentos, não havia poesia.

Sem poesia, não havia luz.

Numa noite especialmente escura, ela subiu até a torre mais alta — uma estrutura frágil feita de páginas em branco — e abriu sua caixa. Lá dentro, as palavras começaram a se mover, inquietas, como se também quisessem respirar.

Então, Lira fez algo que ninguém fazia há muito tempo:

Ela falou.

Não com perfeição, não com técnica, mas com verdade.

Falou do medo que sentia ao ver a cidade apagar.

Falou da saudade de quando as ruas brilhavam como constelações.

Falou do amor escondido nos gestos pequenos, do choro contido, das esperanças esquecidas.

E à medida que falava, as palavras ganhavam forma.

Versos surgiram ao seu redor, primeiro tímidos, depois intensos, como um incêndio suave de luz. O céu voltou a se acender, um poema de cada vez. As casas tremularam, as ruas suspiraram — e a cidade, pouco a pouco, voltou a respirar.

Os moradores saíram de suas casas de papel, tocados por algo que haviam esquecido: sentir.

E então começaram também a falar, a escrever, a lembrar.

Naquela noite, a cidade brilhou mais do que nunca.

E desde então, todos souberam:

a cidade não era feita apenas de papel —

era feita de coragem.

Porque, ali, a poesia não era apenas luz.

Era aquilo que impedia o mundo de desaparecer em silêncio.

Comentários

Lendo o texto achei que faz intertextualidade com a música "Lua e Estrela" de Caetano Veloso. Um belo texto

Gilmair Ribeiro da Silva | 02/04/2026 ás 15:09
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Olha que meu foco é só poesia. Foi lendo o conto da Dolores que veio a inspiração

Rosilene Rodrigues Neves de Meneses | 02/04/2026 ás 15:34

Uma explosão de astros! Um festival, um show de imagens! Isso é o que eu percebo no conto de Rosy Neves. Seu cenário é onírico. Sua narrativa é alegórica e poética. Ela explora a relação inerente entre a expressão literária, que é a poesia e a vitalidade da experiência humana!

Lorde Égamo | 02/04/2026 ás 17:23
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