A Cortesia

Crônicas | Rose Correia
Publicado em 07 de Janeiro de 2026 ás 08h 21min

Sinopse

Ao observar um menino que vende paçoquinhas em frente a um supermercado, uma jovem é confrontada por memórias da própria infância e por questões sociais que permanecem sem resposta. Em meio a uma tarde de chuva, um gesto simples expõe a insuficiência das pequenas cortesias diante de problemas maiores, revelando que enxergar a realidade, por vezes, é o único movimento possível.

 

A Cortesia

 

Certa feita, um menino vivia vendendo paçoquinhas em frente a um supermercado. Uma jovem, inconformada, indagava-se consigo mesma como, em pleno século vinte e um, ainda existiam crianças expostas a esse tipo de trabalho. Muitas vezes perdeu o sono em meio a perguntas sem respostas. Talvez por ter tido uma infância dolorosa, não compreendia o que via.

Quando criança, também trabalhava arduamente. Talvez aquele menino fosse o reflexo do seu passado — e por isso a incomodava tanto. Era como se olhasse para si mesma todas as vezes que seus olhos o encontravam. Parecia que o buscava sempre que ia ao supermercado. Talvez por não ter sido ouvida quando criança, carregava indagações silenciosas que a perturbavam profundamente.

Mas um dia, o clima rompeu o silêncio.

Era domingo. O céu escuro anunciava tempestade. Relâmpagos cortavam o céu e trovões ecoavam pela cidade. Ainda assim, a jovem sentiu que precisava ir ao supermercado. Ao chegar, seus olhos castanhos procuraram pelo menino, quase por instinto. Era inevitável. Algo a guiava — uma sensação difícil de evitar.

Lá estava ele, com a caixa de paçoquinhas junto ao corpo, parado diante da porta automática, sem se proteger da chuva. Parecia acostumado ao tempo, como quem aprende cedo que não pode escolher abrigo.

Ela se aproximou e perguntou qual o sentido de vender doces à porta de um supermercado daquele porte, em meio à chuva. O menino a olhou por um instante e abriu um sorriso contido, daqueles que não pedem explicação. Então disse:

— Essas aqui têm um sabor diferente… quer provar?

Ela ficou em silêncio.

Ele lhe estendeu uma paçoquinha e completou:

— É cortesia.

Ela pegou o doce sem saber se agradecia. A embalagem estava úmida, o papel já começava a ceder. Comeu devagar, mais por respeito ao gesto do que por vontade. Não havia nada de diferente no sabor. Era só paçoquinha.

A chuva diminuiu, mas não cessou. O menino ajeitou a caixa, contou rapidamente o que restava e voltou a se posicionar no mesmo lugar, atento a quem entrava e saía. Não disse mais nada. Também não perguntou o nome dela.

Ela entrou no supermercado. Comprou o que precisava, sem pressa. Quando voltou, o menino não estava mais ali. Restava apenas o chão molhado e algumas marcas de passos misturadas à água da chuva.

Seguiu para casa com a sensação incômoda de que nada havia mudado. O menino continuaria ali em outros dias. Outras pessoas passariam. Outras perguntas ficariam sem resposta.

Mas, desde então, toda vez que atravessa aquela porta, ela lembra que certas cortesias não aliviam o mundo — apenas nos impedem de fingir que não o vemos.

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