A espera na varanda

Poemas | Crônica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 18 de Maio de 2026 ás 06h 29min

A Espera na Varanda

 

de Rosy Neves

 

A varanda da velha casa dava para o mar. Todas as tardes, ela se sentava na mesma cadeira de madeira, já gasta pelo sal e pelo tempo, como quem cumpria um ritual antigo. Os olhos dela estavam sempre costurados nas ondas, presos naquele horizonte interminável onde céu e água se confundiam numa névoa azulada. Esperava o marinheiro. Esperava como quem espera um milagre cansado de nunca acontecer.

 

Diziam os pescadores que o mar era traiçoeiro. Engolia promessas, confundia rotas, roubava homens para guardar em seus abismos silenciosos. Mas ela não acreditava. O amor, pensava, era bússola suficiente para trazer qualquer homem de volta.

 

Quando a noite caía, ela acendia os lampiões da varanda um por um. Pequenas estrelas humanas tremendo diante da imensidão escura.

 

— Acendam os faróis… acendam os faróis… — gritava para o vento.

 

A voz dela atravessava as pedras, voava sobre as águas, subia pelas espumas inquietas das ondas. Mas o eco nunca respondia. Apenas o barulho do mar continuava, eterno e indiferente, quebrando-se contra o cais como um coração insistindo em sobreviver.

 

Havia noites em que a tempestade parecia ter pena dela. A chuva descia mansa, quase silenciosa, como lágrimas do próprio céu. Então ela fechava os olhos e imaginava o marinheiro surgindo dentre a neblina, os cabelos molhados de mares distantes, os braços carregados de saudades e estrelas do oceano.

 

Imaginava os passos dele subindo a escada da varanda.

Imaginava a porta se abrindo devagar.

 

Mas era sempre o vento.

Somente o vento.

E a solidão entrava primeiro.

 

Os anos passaram devagar naquela casa à beira-mar. As paredes envelheceram. As rosas do jardim secaram. Até o relógio da sala desistiu de contar o tempo. Porém ela continuava ali, com os olhos presos no horizonte, como se amar fosse uma forma de vigília eterna.

 

Algumas pessoas diziam que ela enlouquecera.

Outras juravam que, em certas madrugadas de lua cheia, um navio de névoas aparecia longe, quase invisível, com um único farol aceso tremendo na escuridão.

 

E então ela sorria.

Um sorriso tão pequeno e tão triste que parecia feito de despedidas.

 

Talvez o marinheiro nunca tivesse encontrado o caminho de volta.

Ou talvez tivesse se tornado parte do próprio mar.

 

Mas ela continuava esperando.

 

Porque existem amores que não vivem de presença.

Vivem de faróis acesos na tempestade.

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