A Eternidade de um Momento
| Conto | 2026/3 Antologia Rascunho do Eu: enquanto me escrevo | Gilmair Ribeiro da SilvaPublicado em 05 de Março de 2026 ás 18h 38min
Andava pela calçada da Pompeia, acompanhada pelo pedaço de mata ao lado. Em vários trechos, dava de cara com entulho e ferramentas largadas, destoando da beleza do lugar — desgosto. Mas isso o fez lembrar do comentário de um conhecido, o Junqueira, motorista de Uber: “Nós somos formados pelo meio em que vivemos.”
Claro, discordou dele: somos seres culturais; a cultura e a arte, sim, formam e transformam, e nos diferenciam dos demais animais, que são apenas seres biológicos, influenciados pelo meio. Agora, sozinho, riu do debate filosófico de boteco em que havia se envolvido no dia anterior.
Para um caminhante da via pública, as conversas mais banais da vida cotidiana provocam reflexões, como, por exemplo, a visão do futuro. Pensou consigo: na verdade, o futuro nem existe. Falamos, às vezes, de algo ilusório, utópico, que poderá não acontecer, mas que provoca tanta ansiedade e preocupa tanta gente sem motivo aparente.
Para driblar esse incômodo impalpável, refletiu: melhor mesmo seria se agarrar ao passado. Esse, sim, tem existência comprovada; é insubmisso e, em razão de sua força existencial, experiência comprovada, poderia orientar o presente e impulsionar, talvez, essa incógnita que chamam de futuro.
Nos passos ligeiramente controlados da via pública, lembrou-se da frase do escritor Pedro Nava: “A experiência é um farol que ilumina para trás.” Logo pensou: poderia ser isso mesmo, inclusive para ele próprio, que, depois de trinta anos de relevantes serviços prestados na esfera pública, se aposentara e vivera o bastante para constatar que aquele futuro, de maneira orquestrada e idealizada, ainda não chegara — ou não tinha vida própria. Perguntou a si mesmo: “ele não teria sido construído responsavelmente no presente, com as experiências do passado”?
“Agora entendo que o problema da existência é não termos como nos prevenir contra ou a favor do imponderável. E os sonhos e desejos — crianças recém-nascidas em um momento de infortúnio — não poderão sobreviver como, a princípio, idealizados, porque serão adultos em outro tempo, chamado futuro, quando estarão cobertos por outras atmosferas, contando novas histórias e outras nuvens desenhando imagens fantasmagóricas”.
Quando começou a planejar sua vida pensando na aposentadoria, tinha muitos amigos que promoviam visitas às casas, onde bebiam, riam e contavam histórias, e, às vezes, ouviam músicas e dançavam. Agora, eles visitam links e sites.
Lembrou-se dos antigos passeios e do movimento de pessoas na praça pública, onde sempre havia apresentações artísticas e culturais. Hoje, as pessoas visitam avenidas virtuais. Já não se ouvem as vozes dos antigos companheiros, porque muitos nem gostam de falar ao celular: fingem ausência, gravam vozes ou escrevem mensagens.
De tanto falar à distância, outro dia viu um deles num restaurante e se sentiu estranho: “Aquele não era mais o amigo do passado que sentara ao seu lado no ensino médio”.
Inclusive, percebeu que, depois da aposentadoria, as conversas ficaram mais chatas, as relações mais frias, não havia mais afeto. Seria a situação em si, ou porque no presente também não se constrói nada para alicerçar o futuro? Talvez a experiência seja mesmo o que escrevera Pedro Nava: um farol que ilumina para trás.
Enquanto fazia essas indagações, percebeu que se aproximava do local onde tinha de resolver um compromisso pessoal, na Vila Rezende. Olhou o celular: havia caminhado por duas horas consecutivas.
Era coisa rápida. Entrou num estabelecimento e saiu meia hora depois. Estava cansado e resolveu tomar um coletivo, o que não lhe trouxe dificuldade, pois era usuário do transporte público.
Sentou-se, pegou o livro Noites Brancas, de Dostoiévski, para reler o último capítulo. Ao olhar para o lado oposto, levou um susto ao ser indagado:
— Você é o professor Gilberto Amorim?
— Sim, sou eu.
— Não está me reconhecendo, né?
— O rosto e o sorriso são familiares, mas desculpe-me, não me lembro mesmo. Diga-me seu nome, por favor.
— Thália.
De súbito, lembrou-se de uma menina muito tímida, magrinha, de cabelos cacheados, que sentava no meio da classe, na fileira central. Ótima aluna, a melhor da sala. Fora sua aluna no sexto, sétimo e oitavo anos, na Escola Estadual Florestan Fernandes, há doze anos.
Ela, ao abraçá-lo, disse:
— Quero que saiba que você foi o melhor professor de Português que eu tive. Ainda guardo um livro autografado que me deu. Meu filho que nasce daqui há quatro meses, saberá disso.
Ali, naquele instante irrepetível, num curto espaço de tempo, aprendeu que a vida é uma caminhada rumo ao nada, com a possibilidade de, um dia, encontrar numa encruzilhada a alegria — o caminho mais próximo da felicidade. Esse é o momento de viver o instante como se fosse último e único: a possibilidade de um experimento vibrante, impensável, que nos toca sem pedir licença, corpo e alma, proporcionando uma sensação de prazer inexplicável ao mundo das palavras. Talvez a intuição de se ter vivido a vida inteira num só dia. Daí em diante, o mundo e suas contradições já não importavam.
Em casa, tomou banho, bebeu café e subiu à biblioteca — era esse o seu ritual cotidiano: sentar-se no centro do seu “santuário”, como costumava chamá-la. Ali, cercado pelas estantes de livros, era recebido por amigos invisíveis: personagens históricos que, motivados, o cercavam em roda, para que ouvisse histórias comoventes por horas sem fim. Mas, naquele dia, tudo foi diferente: a atmosfera que o envolvia e o esgarçar das nuvens lhe contavam novas histórias, entrelaçando passado e presente, transcendendo o seu espírito. Estava no futuro e vivia em outra dimensão. Então, subiu para uma atividade específica: terminar a leitura do último capítulo de Noites Brancas — e sentiu-se representado pelo parágrafo final do livro:
“Meu Deus! Um momento inteiro de júbilo! Não será isso o bastante para uma vida inteira?...”