A Lenda de Mariquinha do Palácio das Lágrimas.
Textos Jurídicos | Literatura adulta | Keila Rackel TavaresPublicado em 20 de Maio de 2026 ás 22h 24min
*A Lenda de Mariquinha do Palácio das Lágrimas*
Keckel
Dizem os antigos lá das bandas de São Luís que, no tempo do Império, vivia uma moça chamada Maria da Conceição. Mas todo mundo só chamava de Mariquinha.
Mariquinha tinha só quinze para dezesseis primaveras. Era de uma beleza que parava a rua, mas vivia em desamparo. A própria mãe, por precisão e desatino, botou a filha na vida da perdição. E a cidade inteira sabia.
Acontece que um homem de muito poder se encantou por ela. Era o Desembargador Pontes Visgueiro, juiz de mais de sessenta anos, rico e temido. Mas o amor dele não era amor. Era obsessão. Queria Mariquinha só para ele, trancada, calada. E ela, mesmo na desgraça, tinha coragem. Dizia não.
Não aceitando ser rejeitado, o homem poderoso virou fera. Tomado pela raiva de quem perde o controle, premeditou uma maldade. Com ajuda de um capanga, atraiu a moça para um sobrado escuro na Rua São João.
Lá dentro, deram a ela uma bebida para adormecer. E, enquanto dormia, o homem que dizia amar a matou a punhaladas, esquartejou e enterrou o corpo no quintal, debaixo da terra fria, pensando que o silêncio ia enterrar o crime junto.
Mas, o chão gritou. O povo descobriu. E a revolta foi tão grande que até a justiça, que sempre foi cega para os pobres, teve que enxergar. O desembargador foi preso e condenado. Pouco tempo para tamanha crueldade, mas foi condenado.
O sobrado ficou mal-assombrado. Virou o *Palácio das Lágrimas*, porque dizem que, até hoje, em noite de lua nova, se escuta o choro de Mariquinha vindo do quintal.
Mariquinha virou mais que defunta. Virou canto de bumba-meu-boi, virou verso, virou toada. Virou símbolo das mulheres que disseram não numa época em que mulher não tinha voz nem vez.
E é por isso que, em São Luís, quando uma moça é valente demais, os antigos dizem: "Cuidado, tem sangue de Mariquinha".