A menina que conversava com o mar

| Conto | 2025 - Maria Clara Flor e Convidados - Ondas de Poesia | Manoel R. Leite
Publicado em 09 de Março de 2026 ás 10h 23min

Chegou numa tarde em que o vento fizera muitas visitas, chegando então ao seu destino. Trouxe consigo uma mochila pequena, alguns livros e um caderno azul ainda não preenchido. Chamava-se Laura. A casa da avó, que era o seu destino, ficava perto do mar. Não perto o suficiente para ouvi-lo de dentro do quarto, mas perto o bastante para que o sal estivesse sempre presente: nas janelas, nas dobradiças, na pele depois de caminhar. Havia um quintal estreito, uma cadeira de balanço que rangia como se lembrasse coisas antigas e uma mesa onde o tempo pousava com cuidado.

Em sua primeira noite, Laura demorou a dormir. Não por saudade de casa. Era outra coisa, mais difícil de nomear. Talvez o silêncio daquele lugar. Ou talvez o fato de que, ao fechar os olhos, ainda sentia dentro de si um movimento lento, parecido com água. Logo cedo na manhã seguinte, foi até a praia. Não havia quase ninguém. O mar estava largo e calmo, como se respirasse sozinho. Ela sentou-se na areia, abraçou os joelhos e ficou olhando ondas que vinham de longe. Cada uma parecia nascer de um ponto invisível e terminar ali, aos seus pés, dissolvendo-se em espuma branca. Curioso aquilo. Onda vinha inteira e, ao chegar, deixava de ser onda. Aquietou-se olhando.

Vento acaricia fios de cabelo sobre seu rosto. Uma gaivota passa baixo, ou outro pássaro qualquer, a espécie não é mais importante do que o ato. Barcos se moviam ao longe, quase imóveis na linha do horizonte. Naquele hipnotizar de detalhes percebeu algo. Não um som claro, nem palavra. Quase como um pensamento que não era exatamente seu. Algo que vinha junto com o movimento da água.

Então inclinou um pouco a cabeça. Esperou.

Ondas continuavam chegando, quebrando, recuando. Contudo, agora havia nelas um ritmo que parecia dizer alguma coisa. Como se o mar falasse, querendo ser compreendido. Ela não tentou entender. Apenas escutou.

Quando voltou para casa da avó, abriu o caderno azul. Em folha limpa parou o seu olhar, suas mãos e seus pensamentos. E, escreveu:

_ Hoje o mar quase falou comigo!

Parou, leu e pensou. Não parecia certa, mas também não parecia errada. Ficou assim.

Nos dias seguintes voltou à mesma parte da praia. Sentava-se na areia com o caderno ao lado e observando o mar até que as primeiras palavras surgissem dentro dela.

Às vezes era uma história pequena. Um pescador que esperava a maré mudar. Uma concha esquecida na areia que guardava o som de muitas tardes. Um barco antigo que continuava voltando ao mesmo lugar mesmo depois de ninguém mais lembrar seu nome.

Outras vezes eram apenas imagens. Um chapéu de palha preso num prego. Uma janela aberta ao entardecer. Uma criança correndo na água rasa.

Laura escrevia sem pressa. Não sabia exatamente de onde vinham aquelas coisas. Só sabia que apareciam quando ela ficava tempo suficiente olhando o mar.

Avó atenta notou aquela interação. Numa tarde, enquanto cortava manga na cozinha, perguntou:

— O que você tanto escreve?

Ela pensou um pouco, e, respondeu.

— Coisas que o mar conta.

Avó continuou cortando a fruta. Não pareceu surpresa.

— Mar gosta de conversar — disse.

Laura ergueu os olhos.

— Com todo mundo?

— Só com quem fica quieto bastante. – Respondendo com um pequeno sorriso.

Dias passaram como areia em ampulheta. Seu caderno azul se enchendo de palavras. Algumas eram quase histórias. Outras eram frases curtas, como se ainda não soubessem o que queriam dizer. Então começou a perceber que muitas delas falavam de coisas que ela própria sentia. Esperas. Pequenas tristezas. Alegrias rápidas que desapareciam antes de serem entendidas. Isso não a incomodava, parecia natural.

Como se o mar soubesse. Na última tarde antes de ir embora, Laura voltou à praia com o caderno quase cheio. Sentou-se no mesmo lugar de sempre. Esperou e esperou. O mar estava diferente. Ondas vinham mais largas, mais pesadas. Vento passava rápido pela superfície da água. Ficou olhando, esperando as histórias começarem. Mas nenhuma veio.

O mar continuava se movendo. A espuma continuava chegando aos seus pés. Mesmo assim, não havia aquele murmúrio de antes. Tentou escutar melhor.

Nada.

Depois de um tempo abriu o caderno. Folheou as páginas. Cada uma guardava algo que tinha escrito ali na areia: pescadores, conchas, barcos, janelas... Tudo estava ali.

E, tudo tinha sido escrito com sua própria letra. Passou o dedo sobre uma das frases, como se tocasse uma coisa viva. Talvez o mar nunca tivesse contado histórias. Talvez tivesse apenas ficado ali. Tudo acontecendo em seu universo interior.

Fechou o caderno devagar. O sol descendo no horizonte. A água refletia uma cor entre dourado e violeta. Por um instante o mar pareceu completamente silencioso.

Porém não era silêncio. Era outra forma de dizer.

Então levantou-se e sacudiu a areia das mãos. Antes de ir embora, olhou mais uma vez para o horizonte.

Tão distante quanto no primeiro dia. Mesmo assim, algo nele agora lhe era familiar. Quando chegou na casa da avó, colocou o caderno azul dentro da mala. Não como quem guarda um objeto qualquer, mas como quem leva consigo uma coisa que ainda não terminou de acontecer.

Na manhã seguinte, o ônibus partiu devagar pela estrada de terra. Laura encostou a testa na janela.

O mar se mostrou por um momento entre as casas da vila. Era pequeno de longe. E, continuava ali, respirando. Ondas, lá longe, ainda falavam.

Não exatamente com ela. Mas também não completamente sem ela.

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