Tento afastar meus pensamentos da morte, mas falho sempre.
Não é medo do fim, nem do que existe depois.
É tristeza.
Tristeza por imaginar que, quando ela chegar, talvez não faça diferença;
que eu possa partir como quem já estava indo embora aos poucos.
Morro lentamente cada vez que deixo de viver.
Um pedaço de mim se apaga quando escolho a segurança ao invés do risco,
o silêncio ao invés da palavra,
a espera ao invés do passo.
A morte não é um momento — é um hábito.
Eu queria que minha vida fosse uma história que valesse ser contada,
não apenas uma existência cumprida.
Queria que, quando eu me fosse,
restassem ecos: risos guardados em fotografias,
palavras que tocaram alguém,
lembranças que aqueçam quem ficou.
Desejo conhecer lugares que ainda não têm nome no meu mapa,
sentir cheiros que nunca respirei,
atravessar ruas desconhecidas só para ver quem caminha por elas.
Quero gastar tempo com as pessoas que amo antes que o tempo nos gaste.
Quero encontrar novas pessoas para amar e, nelas, me descobrir de novo.
Porque, no fundo, eu não temo a morte.
Temo chegar ao final e perceber que mesmo respirando,
eu não tenha vivido.
Livro: a hidra
Comentários
Profunda a percepção de que muitos não vivem, nem sobrevivem, mas são corpos ocos , eles têm alma, mas elas estão tão vazias que não temem mais a finitude, a morte, pois são cascas de gente...
Obrigado pelo comentário excelente, era justamente essa reflexão que eu buscava trazer aqui!
Este poema filosófico é profundamente reflexivo e existencialista. Natan Oliveira nos quer transmitir a ideia de que existir não é a mesma coisa que viver. Não nos basta respirar. É preciso experimentar, sofrer, arriscar, amar. Vejo neste poema um despertador existencial que nos convida a sair do "piloto automático" e habitar o presente de forma plena, ativa, consciente!