A observação

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 10 de Março de 2026 ás 15h 03min

Às vezes, no silêncio da noite,

quando a cidade respira lenta,

e as luzes distantes parecem estrelas caídas,

eu paro.

 

E a pergunta,

como uma brisa fria na nuca,

me alcança:

Por que estamos aqui?

 

Qual é o propósito deste caminhar,

destes passos marcados no asfalto ou na grama úmida da manhã?

 

Sinto-me um atorem uma peça antiga,

cujas falas já foram ditas,

cujo enredo foi traçado antes mesmo de eu respirar pela primeira vez.

 

Este roteiro invisível,

pesado e preciso,

descreve cada curva,

cada tropeço,

cada pequeno sorriso que me escapa.

 

Eu sigo as linhas,

tento não sair do palco,

mas a alma insiste em questionara autoria desta obra.

 

Não fui eu quem escreveu esta narrativa.

Eu sou apenas a caneta que treme nas mãos de um autor que eu não conheço.

 

E há sempre,

na borda da minha visão periférica,

uma presença.

 

Não é um vulto,

nem um som,

mas uma consciência vasta,

como o céu noturno se tornando espelho.

 

Sinto que sou observado,

através das camadas do tempo,

além da névoa do cosmo,

há um Olhar.

 

Ele não tem rosto definido,

mas tem um peso,

uma expectativa silenciosa que permeia o ar que respiro.

 

Aprovação.

Um aceno sutil quando escolho o caminho que parece ser o certo,

o caminho que alivia a tensão aquele roteiro pré-escrito.

 

Reprovação.

Um frio cortante quando desvio,

quando a rebeldia infantilme puxa para uma rua lateral,

sem mapa.

 

Como se as escolhas fossem testes de fidelidadea um plano mestre,

imutável e eterno.

 

E eu,

pequena peça girando no mecanismo,

continuo a viver o dia,

a sorrir para os vizinhos,

a pagar as contas,

enquanto essa dúvida cósmicame acompanha como sombra.

 

Será que um dia eu encontrarei o palco vazio,

o fim da fala,

e poderei finalmente perguntar ao grande Diretor:

"Por que esta cena?

E quem sou eu,

além do eco da sua vontade?"

 

Até lá,

continuo no papel,

observado,

esperando o sinal para a próxima fala.

A vida segue o script,

e eu apenas finjo a surpresa a cada novo amanhecer.

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