A parte de mim que foi embora
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 28 de Fevereiro de 2026 ás 21h 33min
A parte de mim que foi embora
não levou a bagagem,
simplesmente desmaterializou
na névoa da manhã,
deixando para trás um eco
no corredor vazio do peito.
Era um pedaço feito de riso fácil,
daquele que não precisava de motivo,
apenas da luz certa
ou do cheiro de chuva na terra quente.
Levou consigo a certeza
de que alguns caminhos
eram feitos para serem trilhados juntos.
Partiu sem aviso, como o vento
que decide mudar de direção
no meio do voo.
Não houve adeus formal,
apenas um silêncio denso
onde antes havia melodia.
Restou a estrutura, a pele,
a rotina que insiste em girar,
mas o motor interno
funciona agora com um ruído estranho,
uma vibração incompleta.
Como uma orquestra
onde o violino principal
decidiu fazer uma pausa indefinida.
Eu busco essa parte em lugares improváveis:
no reflexo turvo de uma poça d'água,
na curva de uma canção antiga que toca no rádio,
na forma como a sombra da árvore
se estica no chão ao entardecer.
Espero que ela esteja bem,
que tenha encontrado um novo sol
para aquecer seus ombros.
Às vezes, em momentos de quietude profunda,
sinto um formigamento familiar,
uma lembrança quase física,
como se estivesse tentando encaixar
uma peça de quebra-cabeça
que não cabe mais neste desenho.
Eu não a chamo de perda,
embora a ausência seja um peso.
Eu a chamo de metamorfose forçada,
o desapego que não pedi,
mas que me obriga a aprender
a costurar com linhas mais grossas,
a pintar as paisagens internas
com pigmentos que eu não sabia possuir.
A parte que se foi
é a inocência de acreditar
que tudo o que é bom
tem garantia de permanência.
Ela se tornou memória em movimento,
uma constelação distante,
e eu continuo aqui,
aprendendo a brilhar
com a luz que sobrou,
e a aceitar que o meu eu presente
é feito de tudo que ficou
e de tudo que partiu levemente,
sem pedir licença.