A pescadora
| | Antologia Nacional Família Literária: A travessia das palavras | Bia BarbosaPublicado em 26 de Agosto de 2026 ás 14h 07min
Tenho uma ideia viva na ponta dos dedos
Vida insubmissa movendo-se em agonia
Prendo-a cuidadosamente num pequeno anzol
E com ela mergulho na água fria
Encaro o vasto oceano interior
Tudo é silêncio nas folhas sobre a mesa
Ondas suaves surgem de repente
Uma palavra é fisgada com surpresa
O hálito da musa toma a brisa para si
Movimento mínimo que ondula e cresce
O peixe é feroz e dá seus sinais
Sou pequena na paisagem que se tece
Dou-lhe linha, dou-lhe linhas
O azul-sangue se derrama em tudo
Palavra-puxa-palavra
O enorme peixe lutando mudo
Serei paciente
Persigo-o enlaçada aos meus medos
Por quantos dias e noites devo buscá-lo?
A luta absurda rasgando meus dedos
Jaz vencido e devora-se na reescrita
Já não me convence a conquista da pescaria
Carrego nas páginas um corpo-espinhaço
E meu próprio corpo é carregado de cansaço
Amanheço quase morta na praia
A intensa pescaria está terminada
O triunfo devorou-se no caminho
E meu peixe-poema, nada.