A Semente Que Não Vi
| Conto | 2026/4 Antologia Breves narrativas do cotidiano: entre histórias e versos do dia a dia | Rose CorreiaPublicado em 13 de Abril de 2026 ás 08h 05min
Sinopse: Um encontro inesperado à beira-mar transforma um instante comum em um silencioso começo, revelando que certas mensagens chegam como sementes — mesmo quando não as vemos.
A Semente Que Não Vi
Certo dia, estava sentada em um banco à beira-mar e observava o vai e vem das pessoas. O dia não estava ensolarado, daqueles que convidam a esticar-se na areia e tomar banho salgado. Mesmo assim, a orla estava movimentada: uns faziam seus exercícios e corriam, enquanto outros andavam de bicicleta, e havia ainda os que passeavam com seus animais de estimação.
Eu, porém, deixei-me levar pelos pensamentos que brincavam em minha mente, como as ondas com a areia, a brisa com o vento, as gotículas com as gaivotas e o mar com a imensidão do horizonte.
Foi então que, de repente, um homem — não tão velho para chamá-lo de senhor, nem tão jovem para chamá-lo de moço — veio andando pela orla. Observei-o e percebi que não usava trajes praianos. Assim como eu, parecia deslocado daquele cenário. Vestia uma bermuda cor do entardecer, uma camiseta com tons do infinito e, nos pés, uma sandália que lembrava noites enluaradas.
Pensei: deve ser alguém parecido comigo, que está a trabalho e dá aquela escapada para ouvir o mar, ainda que se vista de maneira peculiar.
Notei também que carregava algo em uma das mãos. Enquanto eu ainda o imaginava, ele passou por mim. Meus olhos o seguiram instintivamente. Então, ele parou, olhou para trás e veio em minha direção.
Desviei o olhar, voltando-me para o mar.
— Bom dia — disse ele.
Rapidamente, respondi.
Ele pegou minha mão e me entregou um pedaço de papel em formato de pétala e disse:
— Para todo fim, é necessário que haja um começo.
Desejou-me o suficiente e continuou seu caminho.
Olhei brevemente para o papel e logo voltei a olhar para onde ele havia seguido — mas não o vi mais...
Baixei novamente os olhos para o pequeno papel em minha mão, abri-o e li:
“Para que você me decifrasse, uma semente foi lançada em algum lugar do universo...”
Guardei o papel com carinho no bolso da mochila e, naquele instante, compreendi o ciclo do existir.
Ainda lembro daquele dia, de tudo ao redor, e me sinto honrada por aquele homem ter me escolhido.
Então pensei: certamente, era um ser angelical disfarçado de humano, para não assustar aqueles a quem escolhe transmitir mensagens otimistas.
Desde então, passei a enxergar começos onde antes eu só via encontros.
Como as ondas — que chegam sem aviso, mas nunca partem sem deixar algo na areia.
Comentários
"A semente que não vi", conto de Rose Correia, é mui reconfortante! É um convite à sensibilidade! Sugere que devemos estar atentos aos sinais que a vida nos impõe e na capacidade de decifrar as "sementes" de otimismo que nos são entregues no caminho da existência por mais diversas mãos desconhecidas, nas mais diferentes formas, em nossos momentos, os mais diversos!
Lorde Égamo | 13/04/2026 ás 10:16Obrigada!! Poeta. Sucesso pra você!!
Rose Correia | 13/04/2026 ás 10:49