A Serpente no Deserto e o Filho da Promessa no Calvário.
Pensamentos | Crônica | Keila Rackel TavaresPublicado em 29 de Março de 2026 ás 21h 48min
A Serpente no Deserto e o Filho da Promessa no Calvário: Uma Crônica da Cura.
Keila Rackel Tavares.
O deserto não é apenas areia e sol; é um espelho. E, naquela tarde, o espelho refletia um povo exausto, não da jornada, mas da própria alma. O maná, aquele pão divino que caía do céu como orvalho, já não trazia alegria; trazia tédio. A carne, provida com fúria de misericórdia, não saciava. "Por que nos tirastes do Egito?", murmuravam. "Para morrer aqui, onde não há pão nem água?".
Aquela pergunta — a pergunta da ingratidão — foi como um sussurro que invocou o veneno. A murmuração é o veneno que o homem fabrica, mas a cobra é o veneno que o pecado traz. Deus irou-se, sim. Não pela fome deles, mas pela negação da graça. E serpentes ardentes vieram, e o acampamento virou um cenário de dor.
Mas há algo poético na dor quando ela gera arrependimento. O povo, com o veneno queimando em suas veias, correu para Moisés. "Pecamos", reconheceram. E então, o milagre da segunda chance. Deus não removeu as cobras, mas ordenou um remédio que desafiava a lógica: "Fazei uma serpente de bronze, colocai-a no alto de uma haste. Quem for mordido e olhar para ela, viverá".
Imagine a cena: o homem morrendo, o olhar vacilante, a dúvida no coração, mas a necessidade da fé. Ele olhava para cima. O instrumento de sua morte (a cobra) agora era o símbolo de sua cura (pelo bronze). A culpa era retirada, o veneno perdia o efeito. A ferida cicatrizava, mas a marca permanecia. Uma lembrança viva de que a ingratidão quase os consumiu, e de que a cura só veio quando pararam de olhar para o próprio umbigo e ergueram os olhos para o alto.
Milênios depois, em uma conversa noturna com Nicodemos, Jesus transforma esse cenário em uma configuração de si mesmo: "E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado".
A comparação é profunda. O deserto é o mundo. O pecado é o veneno. A serpente de bronze é o Cristo na cruz. A culpa de nossa humanidade ingrata é retirada pelo sacrifício, mas a cicatriz da cruz permanece Nele — e em nós — como lembrança eterna de que o Amor pagou o preço. A cura exige o olhar. O olhar exige fé. E a fé nos liberta do veneno, mas nos lembra, na cicatriz, da nossa fragilidade.
E assim, levantados, olhamos. E viveremos.