A trégua do prato
| Crônica | 2026/4 Antologia Breves narrativas do cotidiano: entre histórias e versos do dia a dia | Romeu DonattiPublicado em 21 de Abril de 2026 ás 17h 03min
Conquista de território, soberania, interesses escusos e conflitos ideológicos: eis alguns dos fatores capazes de deflagrar uma guerra. Se são legítimos ou não, depende sempre do ponto de vista, da perspectiva.
Entretanto, para os gêmeos univitelinos Danilo e Daniel – idênticos em quase tudo, exceto na personalidade e no prato – a batalha mais épica e genuína, desde a descoberta da perfeita combinação de textura, aroma e sabor que já lhes passara pelas bocas, travava-se diariamente.
Danilo buscava soberania; Daniel, seu território, defendia.
O litígio se instaurava toda vez que a mesa era posta. Seria intransigência ou implicância? Fato é que uma disputa nada silenciosa sobre o que deveria ser servido primeiro – se o feijão ou o arroz – gerava uma celeuma das boas.
Naquele pitoresco embate, um tentava persuadir o outro acerca do arranjo gastronômico ideal: arroz embaixo ou por cima?
– Arroz primeiro, é lógico! É a base, o alicerce do prato! – sustentava Danilo, orgulhoso, erguendo uma colina branca sobre a qual despejava, triunfante, grãos negros, suculentos e macios.
Daniel revirava os olhos, em desdém:
– Feijão por baixo é o correto! Onde já se viu fazer de outro jeito? Assim, o arroz repousa sobre o nobre caldo, absorve-o, e tudo se transforma num verdadeiro vulcão de sabor. Quem faz diferente só pode ser um serial killer culinário!
A mãe, já cansada de ouvir cotidianamente a mesma ladainha, e sem querer tomar partido no duelo, interveio:
– Meninos, o importante é comer! Comam tudo depressa, vocês vão se atrasar para a escola!
Inutilmente.
Os matreiros já rabiscavam diagramas nos respectivos guardanapos, tentando sustentar e, se possível, convencer o oponente de seus pontos e contrapontos. Argumentos não faltavam.
Ao final da refeição, nenhum dos lados saiu vitorioso. Cada qual comeu à sua maneira.
O único vencedor foi o pudim de leite condensado, poupado até o jantar.
Após a saída dos filhos a mãe, aturdida, divagava:
– Paz, por enquanto. Bandeira branca.
– Não, branco não – lembra o arroz.
– Silêncio sepulcral. Luto.
– Luto também não – é representado pelo preto, a cor do feijão.
– Oh, céus. Que problemão!!!
– Uma trégua... até a próxima refeição.