A última canção

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 18 de Maio de 2026 ás 09h 47min

A Última Canção do Mar

 

de Rosy Neves

 

A última canção do mar foi cantada

na hora em que as ondas silenciaram

como catedrais afundando lentamente

sob o peso azul da eternidade.

 

Os faróis choravam névoas.

As conchas fechavam suas pequenas bocas de sal.

E as gaivotas riscavam o céu

como cartas de despedida queimando ao vento.

 

Então eu o vi.

O marinheiro.

Mas não era homem da Terra.

 

Seus olhos carregavam constelações antigas,

e nos cabelos dormiam poeiras de luas mortas.

Ele caminhava sobre o oceano

como quem regressava de um exílio entre estrelas.

 

Seu navio não era navio.

Era uma nave estelar,

ferida de luzes pálidas,

deslizando silenciosa sobre as águas

como um fantasma perdido entre dimensões.

 

As velas eram feitas de auroras.

As cordas, de fios de cometas partidos.

E o casco trazia símbolos

que nenhum coração humano conseguiria traduzir.

 

Quando ele cantou,

o mar inteiro se ajoelhou.

As ondas tremiam de tristeza.

Os peixes dormiam no fundo escuro

como memórias esquecidas de Deus.

 

E eu compreendi, tarde demais,

que aquela era a última canção do oceano.

Porque depois dela

o mar ficou vazio.

Sem mistério.

Sem estrelas refletidas na água.

Sem o eco dos navegantes antigos.

 

O marinheiro partiu lentamente

atravessando a noite cósmica,

e a nave estelar desapareceu

entre nuvens feitas de eternidade e silêncio.

 

Desde então,

quando a madrugada encosta sua testa fria nas praias,

eu ainda escuto ao longe

uma melodia ferida vagando sobre as ondas.

 

E meu coração entende, em segredo,

que existem amores

que jamais pertencem ao nosso mundo.

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