Ainda há folhas nos galhos

Outono | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 12 de Março de 2026 ás 11h 43min

Ainda há folhas nos galhos das árvores

Um sussurro verde, quase esquecido no topo das silhuetas nuas que se recortam contra um céu cinzento.

A promessa do inverno chegou cedo,

arrancou a tapeçaria vibrante com mãos geladas e impacientes.

 

Mas não tudo se rendeu.

 

Na teimosia da vida que insiste,

algumas resistem,

pequenas bandeiras amarelas tremulando em hastes finas.

Não mais o ouro denso do auge,

nem o carmesim profundo da despedida triunfal.

 

São poucas.

Contáveis.

Pequenas manchas de sol preso,

guardadas contra o azul pálido.

 

Observo de baixo,

o pescoço esticado na busca,

como quem procura um último olhar antes do adeus definitivo.

 

Cada folha remanescente é uma pequena história de teimosia,

um breve ato de beleza contra a certeza do vazio.

 

Elas esperam.

Não esperam a primavera,

pois sabem que seu tempo passou.

 

Esperam o beijo.

O toque final, gentil e inevitável,

do último outono que se recusa a ir embora de vez.

Um sopro final do vento antigo,

que as liberte para a dança derradeira no chão.

 

Elas se seguram com a força fina de quem já se despediu mil vezes,

mas ainda se agarra à luz fraca da memória do verão que foi.

 

E eu espero com elas,

testemunha silenciosa deste final lento,

deste milagre miúdo de folhas que insistem em ser apenas um pouco mais.

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