Amor em pedaços, amor inteiro

Ela o reencontrou numa tarde cinzenta, dessas em que o céu parece carregar o peso de todas as memórias. O café da esquina ainda tinha o mesmo cheiro de pão fresco, mas o tempo havia mudado tudo: os rostos, os caminhos, as escolhas.

Clara entrou devagar, como quem teme encontrar o passado sentado à mesa. E lá estava ele — Miguel, com o mesmo olhar que um dia a fez acreditar que o mundo podia ser inteiro.

— Você demorou — disse ele, sorrindo com uma ponta de ironia.
— Ou talvez eu tenha chegado na hora certa — respondeu Clara, tentando esconder o tremor na voz.

Sentaram-se frente a frente. O silêncio inicial foi quase insuportável, como se cada palavra engasgada fosse um pedaço partido que precisava ser recolhido. Aos poucos, começaram a falar: das ausências, das escolhas que os afastaram, das cicatrizes que o tempo deixou.

— Eu guardei você em pedaços — confessou Miguel. — Um sorriso aqui, uma lembrança ali. Nunca consegui juntar tudo.
— Eu também — disse Clara. — Mas percebi que, mesmo em pedaços, você continuava inteiro dentro de mim.

As mãos se tocaram sobre a mesa. Não era o mesmo amor de antes, cheio de urgência e juventude. Era outro: mais maduro, mais consciente das perdas, mas ainda vivo.

Naquele instante, Clara entendeu que o amor não precisa ser perfeito para ser verdadeiro. Ele pode se partir em mil fragmentos e, ainda assim, permanecer inteiro naquilo que importa: na memória, no gesto, na presença.

Quando se despediram, não houve promessa de futuro. Apenas a certeza de que, mesmo quebrado, o amor resistia. E isso bastava.

Silvia Santos

Livro: Metade Inteira, Metade Partida: Contos, crônicas, cartas, poemas e histórias de quem vive em pedaços e plenitudes

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