APAIXONADA
Outro dia, fiz o café no trabalho como faço tantas outras vezes.
Nada diferente na rotina. A água aqueceu, o aroma se espalhou pelo ambiente e os minutos seguiram seu curso habitual. Mas, naquele dia, talvez por distração ou por excesso de contentamento, o café ficou um pouco mais doce.
Foi o suficiente.
Ao provar, minha patroa sorriu e perguntou, quase como quem desvenda um segredo:
— Você está apaixonada?
Sorri de volta.
— Estou.
A resposta saiu tão naturalmente que até eu me surpreendi.
Ela arregalou os olhos, curiosa como quase todos ficam quando a palavra "amor" entra na conversa.
— Por quem?
Fiz um breve suspense. Não por mistério, mas porque certas verdades merecem alguns segundos de silêncio antes de nascerem.
Então respondi:
— Por mim mesma. E pela vida que tenho.
Ela riu. Eu também.
Mas a verdade é que não era brincadeira.
Durante muito tempo, acreditei que a paixão fosse sempre um acontecimento externo. Algo que chegava através de alguém. Um olhar, uma presença, uma história compartilhada. Como se a felicidade precisasse necessariamente de outro rosto para florescer.
Com o passar dos anos, porém, fui descobrindo outra forma de amor.
Um amor menos turbulento e mais profundo.
Aquele que nasce quando fazemos as pazes com quem somos.
Quando paramos de lamentar as estradas que não percorremos e começamos a contemplar as paisagens que realmente nos pertencem.
Apaixonar-se pela própria vida não significa que tudo esteja perfeito.
Significa olhar para as imperfeições com mais ternura.
É reconhecer as cicatrizes sem transformá-las em morada.
É agradecer pelas pessoas que ficaram, sem viver prisioneira das que partiram.
É descobrir que a alegria não mora apenas nos grandes acontecimentos, mas também nos pequenos detalhes: no cheiro do café recém-passado, numa conversa simples, num fim de tarde tranquilo, num coração que finalmente aprendeu a descansar.
Talvez o café tenha ficado mais doce naquele dia porque algo dentro de mim também havia adoçado.
Não porque a vida tenha se tornado mais fácil.
Mas porque aprendi a saboreá-la melhor.
E desde então, quando alguém me pergunta se estou apaixonada, sorrio por dentro.
Porque estou.
Apaixonada pela mulher que me tornei.
Pela história que me trouxe até aqui.
E pela extraordinária beleza de continuar vivendo.