APAIXONADA

| Crônica | Isolti Cossetin
Publicado em 01 de Junho de 2026 ás 17h 29min

APAIXONADA

Outro dia, fiz o café no trabalho como faço tantas outras vezes.

Nada diferente na rotina. A água aqueceu, o aroma se espalhou pelo ambiente e os minutos seguiram seu curso habitual. Mas, naquele dia, talvez por distração ou por excesso de contentamento, o café ficou um pouco mais doce.

Foi o suficiente.

Ao provar, minha patroa sorriu e perguntou, quase como quem desvenda um segredo:

— Você está apaixonada?

Sorri de volta.

— Estou.

A resposta saiu tão naturalmente que até eu me surpreendi.

Ela arregalou os olhos, curiosa como quase todos ficam quando a palavra "amor" entra na conversa.

— Por quem?

Fiz um breve suspense. Não por mistério, mas porque certas verdades merecem alguns segundos de silêncio antes de nascerem.

Então respondi:

— Por mim mesma. E pela vida que tenho.

Ela riu. Eu também.

Mas a verdade é que não era brincadeira.

Durante muito tempo, acreditei que a paixão fosse sempre um acontecimento externo. Algo que chegava através de alguém. Um olhar, uma presença, uma história compartilhada. Como se a felicidade precisasse necessariamente de outro rosto para florescer.

Com o passar dos anos, porém, fui descobrindo outra forma de amor.

Um amor menos turbulento e mais profundo.

Aquele que nasce quando fazemos as pazes com quem somos.

Quando paramos de lamentar as estradas que não percorremos e começamos a contemplar as paisagens que realmente nos pertencem.

Apaixonar-se pela própria vida não significa que tudo esteja perfeito.

Significa olhar para as imperfeições com mais ternura.

É reconhecer as cicatrizes sem transformá-las em morada.

É agradecer pelas pessoas que ficaram, sem viver prisioneira das que partiram.

É descobrir que a alegria não mora apenas nos grandes acontecimentos, mas também nos pequenos detalhes: no cheiro do café recém-passado, numa conversa simples, num fim de tarde tranquilo, num coração que finalmente aprendeu a descansar.

Talvez o café tenha ficado mais doce naquele dia porque algo dentro de mim também havia adoçado.

Não porque a vida tenha se tornado mais fácil.

Mas porque aprendi a saboreá-la melhor.

E desde então, quando alguém me pergunta se estou apaixonada, sorrio por dentro.

Porque estou.

Apaixonada pela mulher que me tornei.

Pela história que me trouxe até aqui.

E pela extraordinária beleza de continuar vivendo.

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