Arqueologia do esquecimento
| | 2026/9 Antologia O invisível que a palavra revela | Manoel R. LeitePublicado em 02 de Setembro de 2026 ás 13h 11min
A caixa repousava no fundo do armário sob uma camada fina de pó, essa pele que o tempo deposita sobre aquilo que deixamos de convocar. Dentro, poucos objetos: uma chave escurecida, duas fotografias, um botão de madrepérola, um relógio imóvel e um papel dobrado tantas vezes que as fibras começavam a ceder.
Nada parecia importante. Talvez por isso tudo importasse. A fotografia devolvia uma casa quase apagada pela luz. Um telhado baixo, vegetação nas margens, corpos imóveis diante da câmera. Ao fundo, uma faixa escura podia ser varanda, sombra ou simples defeito do papel. Bastou fitá-la por alguns instantes para que surgisse uma tarde inteira: cheiro de terra molhada, pés sobre cimento frio, folhas vergadas pela chuva, o som grave da água escorrendo pelas calhas. A cena possuía a nitidez suspeita dos sonhos. Seria lembrança?
A pergunta surgiu tarde demais. O corpo já reconhecera o frio do chão.
A chave despertou outra arquitetura. Uma gaveta pesada. Madeira lustrosa. Moedas, papéis, pequenas coisas interditadas às mãos infantis. Era possível sentir o metal da fechadura contra os dedos e até ouvir o breve estalo que antecedia sua abertura.
Contudo, nenhuma prova acompanhava aquela certeza. Talvez a gaveta nunca tivesse existido. Memória também fabrica ruínas. Encontramos um fragmento e levantamos ao redor dele uma casa inteira.
O papel guardava poucas palavras sobre um casaco e o frio próximo de um rio. Imediatamente, a água apareceu. Turva, lenta, com reflexos de cobre sob a tarde. Pedras úmidas na margem. Fumaça de lenha. Mosquitos suspensos na claridade. Um vento vindo da superfície e trazendo aquele odor mineral que pertence aos lugares onde terra e água ainda disputam fronteiras.
Era impossível não recordar. Também era impossível garantir que aquilo tivesse acontecido. Talvez o rio viesse de uma fotografia vista na infância, ou, de uma narrativa tantas vezes ouvida que terminara por adquirir carne, temperatura e cheiro. Quem sabe uma paisagem inventada pela necessidade de preencher as lacunas. O esquecimento raramente deixa espaços vazios. Imaginação trabalha sobre eles.
Dois botões tornam-se um vestido. Uma chave convoca uma porta. Uma sombra inventa uma varanda. Um papel produz um rio. Depois chamamos tudo isso de passado.
O relógio permanecia sem ponteiros. Entre todos os objetos, parecia o mais exato. Não pretendia medir nada.
Ao fim, a caixa voltou ao armário, mas uma das fotografias permaneceu sobre a mesa. Quanto mais era observada, menos certeza oferecia. Formas antes familiares começavam a parecer estranhas; aquilo que parecia evidente tornava-se hipótese. Ainda assim, alguma coisa persistia. Não uma lembrança completa.
Uma sensação. O aroma de madeira fechada. Umidade sobre a pele. Brilho breve de um metal. Casa que talvez, certamente, inexistente outrora viva. Um rio que poderia nunca ter sido visto.
O recordar consista nisso: escavar o que restou e aceitar que, em determinada profundidade, já não sabemos onde termina o vestígio e começa aquilo que inventamos para suportar sua ausência.
Toda memória possui um pouco de arqueologia. Toda arqueologia, um pouco de imaginação. E algumas ruínas talvez só sobrevivam porque jamais conseguimos provar que foram nossas.
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Parabéns sucesso