Arraiá que mora em mim
Poemas | Arraiá das letras - Família Literária 2025 | Manoel R. LeitePublicado em 03 de Fevereiro de 2026 ás 08h 36min
Quando junho acende o chão
com bandeira e oração
o sino chama mansinho
e o povo vem no caminho
com cheiro de milho e fé
Não é festa só de riso
é promessa, é compromisso
tem santo olhando de cima
tem reza bordando a rima
no passo lento do pé
Lá no quintal da memória
vejo mesas bem servidas
bolo de arroz, canjica
pixé, ponche, licor, paçoca
e a família reunida
Cuiabá se reconhece
no fogão que não se apressa
Várzea Grande responde
com sabor que não se esquece
herança que atravessa
Tem siriri no terreiro
tem viola afinada
o povo dança sorrindo
como quem reza cantando
sem separar fé de nada
A igreja aberta ilumina
a rua cheia de cor
não precisa muito luxo
basta vela, basta canto
e o coração servidor
Nas noites dos anos oitenta
noventa vem logo depois
a festa era mais simples
mas cabia muito mais
dentro de todos nós
Ainda cabe
ainda pulsa
ainda chama
O tempo passa
mas não leva
o que é raiz
Sou desse chão
desse jeito
desse arraiá que resiste
Trago no peito a alegria
que não grita, mas aquece
uma fé que se reparte
como pão que nunca falta
quando o povo se oferece
E assim sigo celebrando
com verso, cheiro e memória
porque a festa que é do povo
não termina na fogueira
segue acesa na história.