As cartas que nunca recebi
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 06 de Março de 2026 ás 18h 15min
A areia do cais ainda cheira a sal
e a promessa de partida.
Eu estava ali, com a mala cheia de não-ditos,
e o bilhete de embarque
para um lugar onde as cartas
nunca chegam com a maré.
Do outro lado do azul infinito,
tuas mãos escreviam
e eu imaginava a tinta
espalhando-se no papel áspero,
a caligrafia que me ensinaram a amar,
mas que meus olhos nunca viram
assentada na mesa da cozinha do exílio.
Cada onda que quebrava na costa
trazia o rumor de um selo rasgado,
de um abre suave,
de notícias doces ou amargas
que o tempo engoliu antes de aportar.
As cartas que nunca recebi
são feitas de silêncio e névoa marítima.
São folhas dobradas, guardadas
em gavetas de um tempo que não avança,
onde as datas se misturam
e o perfume da carta imaginada
é mais forte que qualquer correspondência real.
Eu construí um álbum mental
com o conteúdo suposto.
A carta da manhã chuvosa,
contando sobre o cheiro da terra molhada
que eu deixei para trás.
A carta da tarde ensolarada,
descrevendo o sorriso que me faltava
na curva da rua familiar.
Eram páginas em branco
que eu preenchia com a saudade mais pura,
a urgência da voz que se perdeu
no rugido dos motores do navio.
Cartas de conforto,
que nunca precisaram de estafetas,
pois a dor da ausência era o próprio correio.
Espero por elas no cais vazio,
sob a luz fraca do farol que pisca
como um coração cansado.
Sei que talvez nem tenhas sabido
para onde enviar o teu abraço escrito,
pois o oceano é um mestre cruel
em desviar os caminhos da intenção.
E assim, vivo da miragem postal,
da caligrafia espectral que desenhei no ar salgado.
As cartas que nunca recebi
são as mais sinceras,
pois contêm tudo o que não pôde ser dito
quando a distância se tornou o nosso único idioma.
Elas navegam, eternamente,
na correnteza da memória não confirmada.