As coisas velhas falam
Literatura infantil | Susana Graciela Zuanazzi CapitanioPublicado em 24 de Fevereiro de 2026 ás 21h 04min
As coisas velhas falam
As coisas velhas tem memórias.
Um chapéu, uma cadeira, um caldeirão,
Aquela colcha antiga de retalhos…
Uma cozinha com um velho borralho
Sempre acesso aquecendo o feijão,
As coisas velhas nos contam histórias.
Para quem sabe ouvir direito as coisas velhas falam,
Falam No silêncio da casa vazia que convida o passado
Sobre noites de mesa posta, taças de vinho e porcelanas
Falam de lenha recém cortada chiando no fogo
Almofadas amassadas nas cadeiras segurando a conversa mais um pouco.
As coisas velhas falam de tudo
Elas não aprenderam a discrição das pessoas velhas
As janelas velhas se abrem, rangem e mostram sem pena pro mundo
Aquela figura presa na lembrança de quem ficou
Uma figura de quem saiu e não retorna…
As coisas velhas não vão embora…Permanecem no mesmo lugar, a não ser aquelas que não servem mais
Nem pra se jogar fora …
As coisas velhas falam por que se lembram
Lembram do que nós tentamos esquecer
Ou do que esquecemos sem querer
Elas lembram de tudo que fomos
E até do que deveríamos ser
De tanto ficar do mesmo jeito e no mesmo lugar
Tem gente parecendo coisa velha…
Falando sempre das mesmas coisas,
Tentando lembrar alguém que já se foi
Vivendo de memórias e cercado de figuras que já foram embora…
Esquecem que gente não é coisa, e quando percebem isso, o melhor tempo já passou.
Pensando bem agora, nesse tempo que passou
Melhor não ouvirmos tanto as coisas velhas
Nem falar muito delas…
Deixar dormir de novo a colcha de retalhos, apagar o fogo do borralho…
Fechar as janelas barulhentas e guardar as taças e porcelanas…
Assim, as coisas velhas se aquietam
Permanecem no silêncio da memória
Guardando segredos e história
Mesmo que todos já saibam
Que as coisas velhas falam!