Barco à deriva
| Poesia intimista | 2025 - Antologia Keila Rackel Tavares e convidados | Manoel R. LeitePublicado em 11 de Março de 2026 ás 15h 05min
Sobre a vastidão indecifrável do horizonte interior navega um barco sem mapa
não conduzido por bússolas seguras, mas pela inquietude da consciência
Águas parecem calmas apenas para quem as observa de longe
pois no fundo ocultam correntes antigas de memória e desejo
O tempo sopra como vento nas velas do pensamento
e a razão tenta em vão cartografar os arquipélagos do sentido
Noites em que o mar se torna espelho da própria dúvida
e a alma contempla sua imagem tremendo na superfície do ser
Nenhuma estrela oferece direção definitiva
pois até o firmamento participa do enigma universal
Assim o navegante aprende que existir é atravessar neblinas
onde cada escolha inaugura um novo fragmento de destino
Entre o silêncio das ondas e o rumor secreto das marés
a consciência recolhe perguntas como conchas antigas
Que porto poderia acolher aquilo que não deseja repouso
se o espírito humano é feito de travessias incessantes
Pessoas procuram terra firme para apaziguar o coração
Porém não compreendem que o movimento também é morada
Nesse barco sem nome seguem pensamentos errantes
filosofias inacabadas e esperanças ainda sem forma
O horizonte recua sempre que parece alcançado
busca a verdade como um farol que prefere distância
No convés do tempo amadurece uma serenidade discreta
nascida da convivência íntima com o mistério
Porque navegar não é dominar as águas
mas consentir em aprender com sua profundidade
E assim o barco continua sua lenta errância
sustentado pela coragem silenciosa de existir.
Talvez o destino do homem não seja chegar ao porto
mas aprender a compreender o mar.
Comentários
Nós devemos nos exercitar para nos conhecer para depois conhecer a natureza.
Keila Rackel Tavares | 11/03/2026 ás 16:19