Barco abandonado
| Crônica | 2025 - Antologia Keila Rackel Tavares e convidados | Manoel R. LeitePublicado em 11 de Março de 2026 ás 15h 38min
A maré recuara durante a madrugada, deixando na praia um silêncio cativante, desses que parecem existir antes mesmo da chegada dos homens. O sol subia devagar quando o barco se tornou visível por inteiro. Estava inclinado sobre a areia úmida, como um animal cansado que escolhera aquele lugar para descansar depois de uma travessia longa demais. Era um barco pequeno, de madeira envelhecida pelo sal e pelo tempo. A pintura azul, outrora viva, agora aparecia em manchas desbotadas, como lembranças que insistem em permanecer apesar do esquecimento. Em alguns pontos a madeira estava rachada, revelando fibras endurecidas pelo vento. Um pedaço de corda ainda se prendia à proa, balançando lentamente ao sabor da brisa da manhã. Em seu entorno a praia continuava sua rotina indiferente. O mar respirava em ondas curtas e repetidas, trazendo consigo o cheiro de algas e sal. Adiante do barco, uma fileira de conchas quebradas desenhava um caminho irregular que desaparecia na linha da maré.
Quem passasse ali poderia pensar que o barco estava abandonado havia muito tempo. E talvez estivesse mesmo. Mas havia algo na sua presença que sugeria outra coisa — uma espécie de espera silenciosa, como se o ele guardasse em sua madeira a memória de vozes que já não estavam ali.
Pescadores da região diziam que aquele barco não pertencia a ninguém. Outros juravam que ele aparecera certa manhã depois de uma tempestade distante, como se o mar o tivesse devolvido à terra sem aviso. Havia até quem contasse que, durante algumas noites de vento, era possível ouvir o ranger da madeira como se alguém ainda caminhasse sobre o convés invisível.
Nada disso, porém, podia ser provado.
Naquela manhã, um homem caminhava pela praia quando avistou o barco. Chamava-se Ernesto, caminhava muito pois se aposentara do pequeno armazém da vila. Gostava de caminhar cedo, antes que o calor ocupasse as ruas e antes que o movimento da cidade acordasse por completo. Ao ver o barco, diminuiu o passo. Não era a primeira vez que o encontrava ali. Mas naquela manhã algo estava diferente. Talvez fosse a luz oblíqua do sol tocando a madeira, talvez o modo como a sombra da embarcação se estendia sobre a areia
Aproximou-se devagar. Passou a mão pela lateral do casco, sentindo a textura áspera da madeira. Encontrou marcas profundas ali, cicatrizes deixadas por muitas viagens. Um pequeno caramujo se prendia à borda inferior, e entre as tábuas secas cresciam minúsculos filamentos de algas que o vento insistia em balançar.
Ficou silêncio, era curioso. Pessoas curiosas gostam de ouvir silêncio. Enquanto observava a embarcação, imaginou as travessias que ela realizara. Pensou em madrugadas de pesca, em redes sendo puxadas lentamente para dentro do casco, em vozes falando baixo enquanto o horizonte ainda estava escuro. Visualizou também as tempestades que enfrentara, o balanço interminável das ondas e o silêncio profundo das noites abertas sobre o oceano.
Notou areia acumulada dentro do barco. Subiu com cuidado pela lateral e olhou para o interior. O fundo estava coberto por uma camada fina de areia clara, prova que se tornara parte da praia.
Ali dentro havia também um pedaço de madeira solta, duas conchas e um velho anzol enferrujado. Nada mais.
Ainda assim, Ernesto teve a estranha sensação de que aquele barco não estava completamente vazio. Como se cada pedaço de madeira guardasse histórias não contadas em voz alta. Histórias de mãos calejada, de redes pesadas voltando do mar, de noites em que a única companhia era o brilho distante das estrelas.
Desceu novamente para a areia. O sol iluminava a praia com mais força. A maré voltara lentamente, desenhando linhas brilhantes sobre o chão molhado. Ao longe, dois meninos corriam atrás de um pedaço de madeira que a água empurrava de um lado para o outro.
Ernesto olhou outra vez para o barco. Talvez todo barco abandonado fosse apenas perguntas deixadas pelo mar.
Quem o construiu? Quem o conduziu pelas primeiras águas? Em que momento a viagem terminou?
O vento foi sentido novamente na praia, fazendo a corda da proa se mover com um som seco e leve. Naquele momento o barco pareceu inclinar-se ainda mais para o lado, como se quisesse conversar com o companheiro mar. Em resposta uma onda um pouco mais longa alcançou a areia próxima ao casco e tocou suavemente a madeira. Não foi suficiente para movê-lo, mas deixou ali uma linha brilhante de água que escorreu lentamente pelas tábuas.
Ernesto sorriu. O mar cumprimentara um velho amigo.
Retomou sua caminhada, deixando o barco onde estava. Quando voltasse no dia seguinte, ele ainda estaria ali, um pouco mais coberto de areia, um pouco mais silencioso. Mas ainda guardando a dignidade tranquila das coisas que já conheceram o movimento do mundo.
Comentários
Deu até um frio de suspense na barriga!
Keila Rackel Tavares | 11/03/2026 ás 16:14