Caro Sigmund, O que o Senhor não Sabia sobre o Pâncreas
Ensaios | | Luciana Kelm | escritoraPublicado em 01 de Abril de 2026 ás 10h 41min
Caro Sigmund,
Peço licença para invadir o seu repouso com o barulho de um bipe eletrônico. Escrevo-lhe não como a estudante que reverencia o seu tripé em Viena, mas como a mulher que, no Brasil de 2024, precisou transformar o próprio corpo em uma glândula para que o filho continuasse a respirar.
O senhor nos disse que a anatomia é o destino. Mas o que o senhor teria a dizer sobre o destino de Matheus? Aos dez anos, o pâncreas dele decidiu silenciar. Naquele dia, Professor, eu vi o filho ideal, aquela projeção narcísica de saúde e imortalidade que o senhor tão bem descreveu, morrer diante dos meus olhos. O diagnóstico foi o seu velório.
Mas aqui reside o meu questionamento: como se faz o luto de um filho que permanece vivo?
Tornei-me uma mãe pâncreas. Enquanto estudo seus textos sobre a pulsão e o inconsciente, minhas mãos medem miligramas e contam carboidratos. O pâncreas do meu filho agora é um algoritmo, um sensor colado à pele, uma prótese tecnológica que o senhor, em sua época, talvez chamasse de homem-deus. Mas não há divindade aqui, Freud. Há apenas a falta. Uma falta de insulina que se tornou a organizadora da nossa existência.
Eu te questiono, Sigmund: onde fica a castração quando ela não é simbólica, mas biológica e diária? O senhor sofreu com a sua prótese na mandíbula, sentiu o gosto do metal e da finitude. Talvez, por isso, seja o único que possa me entender. A escrita, para mim, tornou-se o divã onde tento elaborar essa dor que a medicina chama de crônica e que a psicanálise chama de real.
Matheus hoje tem dezesseis anos. Ele sobreviveu ao luto da minha projeção. Ele é o filho real que o senhor me ensinou a aceitar, mas que a teoria não me ensinou a vigiar durante as madrugadas de hipoglicemia.
Deixo esta carta na Família Literária como quem lança uma garrafa ao mar do tempo. O senhor não está aqui para me responder, mas a sua ausência me obriga a encontrar minhas próprias respostas. Afinal, a psicanálise que eu busco é aquela que não tem medo de sujar as mãos no sangue, na glicose e na vida como ela se apresenta: imperfeita, mediada por máquinas, mas ainda assim, pulsante.
Com a reverência de quem estuda e a audácia de quem sente,
Luciana Kelm