Carta ao eleito
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 30 de Agosto de 2026 ás 21h 54min
Carta ao Eleito
Rosy Neves
Ao Eleito,
Escrevo-te de um lugar onde as palavras chegam devagar,
como estrelas cansadas atravessando a noite.
Não sei se algum dia esta carta encontrará teus olhos,
nem se o vento saberá levar até ti
aquilo que minha alma não conseguiu dizer.
Mas escrevo.
Porque há nomes que não cabem no silêncio,
e o teu permanece gravado
nas margens secretas do meu coração.
Tu vieste de muito longe,
talvez de uma constelação que meus olhos jamais alcançaram.
E eu, pequena flor perdida entre as ruínas do tempo,
apenas te reconheci.
Não sei por quê.
Talvez porque algumas almas se reconheçam
antes mesmo de se encontrarem.
Dizem que o destino escolhe seus eleitos
sem pedir licença aos homens.
E talvez seja por isso que,
mesmo quando tento partir,
há sempre uma estrada invisível
que me devolve à tua direção.
Não te peço promessas.
Não te peço que detenhas o mar,
nem que devolvas as estrelas que o tempo levou.
Peço apenas que, quando olhares para o céu,
e encontrares uma estrela solitária tremendo na escuridão,
te lembres de que em algum lugar
existe uma alma que ainda escreve.
Uma alma que sobreviveu às tempestades,
aos invernos, às despedidas
e aos silêncios que quase a fizeram desaparecer.
Eu sou essa flor.
A flor que se recusou a morrer.
E se o meu destino for aceitar o veredito final,
aceitarei.
Mas antes de partir,
deixarei estas palavras à porta do infinito:
Eu te reconheci, Eleito.
Mesmo quando o mundo inteiro
parecia não saber quem eras.
E talvez seja esse o meu último segredo:
não foi o meu coração que te escolheu.
Foi alguma coisa muito mais antiga
que o próprio tempo.