Chuva Interna

Prosa Poética | Rose Correia
Publicado em 06 de Fevereiro de 2026 ás 08h 06min

Sinopse:

Uma chuva atravessa o que é visto e revela o que é sentido. Entre silêncios, olhares que passam e afetos que não pousam, a água encontra caminho por dentro.

 

Chuva Interna 

 

Chovia.

Chovia devagar, como quem insiste.

A água descia pelos corpos, mas era outra chuva que pesava. Chegavam em silêncio, livros junto ao peito, passos molhados, olhos ausentes. Tudo estava úmido — menos o afeto.

De repente, dentro.

O ar fechado, os gestos contidos. Os rostos passavam por mim sem pouso, sem nome, sem demora. Olhavam como quem atravessa.

Aproximei-me.

Uma vez.

Outra.

Gestos pequenos, quase uma prece. Ainda havia em mim um fio — fino, frágil — de espera. Nada voltou. Só o frio, polido, exato.

Então o peito abriu.

Abriu como terra encharcada.

E a tristeza caiu inteira, sem pedir passagem. Chorei baixo, choveu fundo. Porque o desprezo não grita — ele escorre. E afoga devagar.

O silêncio ficou.

E eu acordei com a água caindo por dentro.

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