Conselho Fraterno
| Narratica | 2025 - Antologia Adailton Lima e Convidados - Fragmentos Poéticos | Gilmair Ribeiro da SilvaPublicado em 02 de Maio de 2026 ás 00h 18min
O doutor Silas, como gostava de ser chamado, era onipresente; por conta disso, para alívio dos funcionários, o burocrata ausentava-se constantemente do seu “quartel-general” – uma sala bem organizada, instalada no escritório localizado logo após a portaria de entrada da empresa. Era metódico e intuía estar, ao mesmo tempo, em todos os setores – seja presencialmente, seja por delegação – pelos quais se locomovia cotidianamente, com destreza e certa ansiedade.
O processo de arquitetura e engenharia da empresa, composto por dois barracões horizontais, sem repartições aparentes e com precárias divisões setoriais, facilitava seus movimentos fiscalizatórios entre trezentos funcionários que realizavam trabalhos de produção de caldeiras para usinas de açúcar. Como todo déspota, sabia que não era respeitado. Tinha conhecimento, inclusive, de que era chamado, ironicamente, pelas costas, de “Gordito”. Porém, contentava-se em ser temido.
Naquele tempo, eu precisava muito do meu trabalho. Família apertada, pagando aluguel; com dois dos três irmãos desempregados, meus recursos acabavam inteiramente nas mãos dos meus pais, para as despesas familiares: compra do mês, aluguel, água, luz. Não reclamava. O que me incomodava sobremaneira era o fato de que, toda vez que eu me dirigia ao banheiro para fazer minhas necessidades fisiológicas, logo via a cara larga do “Gordito” me espiando, com o providencial alerta: “Daniel, terminou seu trabalho?” ou “Aquilo é para ontem, meu filho!” Por essas e outras razões, eu tinha certeza de que o cara não gostava de mim – tampouco dos meus dois amigos que dividiam o setor comigo: o “Pé-de-Vento” e o “Bico Doce”. Naquele tempo, nas fábricas, era assim: quase todo mundo tinha apelido, e a gente levava tudo numa boa.
Ainda hoje, tenho a impressão de que sua implicância comigo se originava de uma frase impactante, grafada na parede do compartimento do banheiro: “Caganeira não é merda, são lágrimas de um cu apaixonado.” Ele possivelmente atribuía a autoria a mim, já que, nas horas vagas, minhas mãos estavam sempre ocupadas com livros
Gordito era uma unanimidade: todos o odiavam por dispensar tratamento áspero e grosseiro aos empregados (naquele tempo, a peãozada desconhecia o vocábulo “colaborador”, pois o capitalismo ainda não fazia uso do poder de expressões pomposas como essa para dominação). Espírito do tempo: mandonismo, abusos, torturas psicológicas, assédios... tudo acabava se normalizando nos locais de trabalho diante de uma organização social em que o próprio Estado remunerava agentes para prender sem processo legal, torturar e, diziam, até matar.
No interior da fábrica, em razão do barulho, os funcionários se comunicavam por sinais, e as sentinelas, naquele tempo, cumpriam bem o seu papel. Tanto que, de repente, todos os empregados se locomoviam com desenvoltura, uns e outros procurando o que fazer, intuindo não serem chamados à atenção publicamente. Era fato, e nem havia necessidade de questionamento:
– O “doutor” Silas estava caminhando pela fábrica.
O que me deixava indignado é que o canalha sem escrúpulos tratava com cordialidade meu irmão, o “Sexta-Feira” – que tinha esse apelido porque ficava “doente” todas as sextas-feiras, justificando sempre as ausências com atestado médico para ter um final de semana prolongado. Ocorre que, mesmo assim, o calhorda agradava meu irmão. Não sei se era pelo fato de o mano ser o melhor jogador do time de futebol da empresa, responsável por golaços que levavam o time da fábrica todo ano à final do torneio regional, ou se era pelo fato de ele jogar capoeira. “Com capoeirista não se mexe”, diziam nossos camaradas. Certo dia, indaguei meu irmão sobre o assunto, e ele apenas respondeu:
– De repente, meu calcanhar pode tocar a cabeça do cara. Acidentes de trabalho acontecem!
O estranho da situação, típico dos anos de chumbo, é que alguns funcionários diziam que o “doutor” Silas era gerente; outros diziam que ele era diretor. Eu só sabia que ele mandava. Mas o que ninguém sabia era quem eram os proprietários da empresa. Enquanto isso, o cara seguia, despótico e vaidoso. Inclusive, naquela época – começo dos anos oitenta, final da ditadura militar – poucas pessoas assalariadas tinham veículos, e a maioria dos funcionários se locomovia ao trabalho por meio de ônibus da empresa. Alguns outros, que moravam fora da cidade, utilizavam ônibus suburbano.
Mas ele, o canalha, chegava de carro novo e muito limpo, vestindo roupas de passeio e sapatos bem engraxados. Passava pelo escritório, depois ia até o alojamento localizado no interior da empresa, onde guardava, no armário 39, as roupas de passeio e os sapatos engraxados. Em seguida, vestia uma roupa de trabalho bem passada, calçava os sapatões e iniciava seu teatro de horror, se locomovendo pela empresa. Na hora de ir embora, trocava de roupa novamente.
Recordo-me bem desse dia. Era mês de dezembro, proximidade do Natal, período em que a minha indignação atingiu os níveis mais altos. Tanto que, necessitando de um aconselhamento para não fazer uma besteira, procurei meu irmão mais velho, o Sexta-Feira – que era de pouca conversa, mas leitor de Jorge Amado e do cronista João Antônio – para uma resenha. Foi nesse dia que ouvi dele o conselho que jamais me esquecerei:
- Perdoe sempre seus inimigos, mas nunca se esqueça do nome deles.
E completou:
- Mano, lutamos na rua contra o autoritarismo da ditadura, somos contra a violência. O que podemos fazer é humilhar quem nos humilha e envergonhar quem nos envergonha.
Fiquei a semana toda tentando decifrar o que ele havia me dito, até que, certo dia, fui despertado por uma brilhante ideia, revelada num sonho. Coloquei-a em prática no dia seguinte. Era uma sexta-feira.
No cair da tarde, testei os armários e produzi, no esmeril, uma chave falsa. Depois, entrei no compartimento onde se instalavam os banheiros e fiquei ali testando aquela gambiarra no armário 39, como se precisasse guardar alguma coisa no meu próprio armário. Enquanto isso, sob minha orientação, Bico Doce vigiava a parte externa, e Pé-de-Vento vigiava a parte interna do compartimento.
A senha combinada era duas batidas na porta do banheiro, caso chegasse alguém suspeito. Recordo-me de que foi tudo muito rápido: com muita perícia, utilizei minha chave falsa e consegui abrir, até com facilidade, o armário 39. De lá, confisquei os belos sapatos ilustrados do doutor Silas e, levando-os ao banheiro, fiz no interior deles as minhas necessidades fisiológicas. Ato contínuo, coloquei cuidadosamente as meias sobre aquela obra-prima e guardei de volta ambos os sapatos no armário 39.
Mais tarde, por volta das 17h30, soou a sirene. Todos correram aos banheiros e aos armários. Foi quando vi aquele homem, que gostava de escolher as palavras para mostrar-se sábio, gritar, indagar, falar palavrões e dizer que iria “descobrir o autor daquele absurdo e dar dois tiros na cabeça dele”. Lembro-me bem dos pés dele, dessa feita ostentando aquelas meias lambuzadas, e da satisfação nas faces dos meus dois companheiros. Enfim, ele jogou os sapatos e as meias no lixo e foi para casa calçando os sapatões. A autoria do feito jamais foi revelada, mas, coincidentemente, eu e meus dois amigos fomos demitidos dois meses após esses fatos. Confesso que esta foi a maior aventura da minha adolescência – tanto que, passados 25 anos, toda vez que sou afrontado por um aluno, recordo-me desse momento com nostalgia.