Conto de escola: amizades verdadeiras
| Conto | 2026/4 Antologia Breves narrativas do cotidiano: entre histórias e versos do dia a dia | Neiva Guarienti PagnoPublicado em 26 de Abril de 2026 ás 21h 22min
Esta história aconteceu há muito tempo atrás. O fato narrado ocorreu realmente, porém os nomes são fictícios para não revelar a verdadeira identidade das pessoas envolvidas, já que os adultos daquele período desconhecem o episódio até hoje.
Kátia era uma adolescente de 13 anos, estudava no período da tarde, na 6ª série “C”, numa escola estadual. Sua turma era numerosa, tagarelava demais e possuía muitas panelas. A garota fazia parte de um grupinho de quatro amigas, as quais não se separavam por nada, não revelavam suas molecagens e não deixavam ninguém entrar na patota. O nome da panela era “As impossíveis” e faziam parte: Kátia, Neide, Cristina e Sandra.
A turma da 6ª série “C” até que era estudiosa, se dava bem nas provas (com algumas exceções), realizava as tarefas de casa e também as da sala. Mas, para que se fizesse algum silêncio, era necessário que o quadro estivesse cheio de atividades ou que algum capítulo do livro devesse ser copiado e respondido por inteiro.
Tempos difíceis? Que nada! Tudo era vivido com alegria e muita intensidade e, com as panelas na sala, as situações cotidianas ficavam mais leves.
Certo dia, Kátia foi para a escola sem caderno, pois o seu havia acabado. Sua mãe, então, deu-lhe dinheiro para que comprasse outro. O mercado da pequena cidade ficava em frente à escola, bastava atravessar a rua. Mas, para poder comprar o caderno, era óbvio que Kátia precisou levar um bilhete da mãe explicando ao diretor Sílvio sobre a falta do material e pedindo sua autorização para que a adolescente pudesse sair da escola.
Bilhete entregue e autorização concedida. Mas era evidente que Kátia não iria sozinha, nem que fosse até o banheiro da escola. E de um jeito bem discreto, foram todas as amigas (da panela) junto com Kátia, até ali, do outro lado da rua, no mercado, para comprar 1 caderno.
Kátia e as amigas entraram no mercado, escolheram um caderno brochura de capa floriada e era só pagar a conta para voltar à escola.
Mas, de repente, Sandra afastou-se do grupo e, na prateleira dos doces, ria à beça, pois tinha aberto uma caixa de chicletes Ploc enquanto enchia seus bolsos com o produto. Neide e Cristina também colocaram chicletes nos bolsos e saíram do mercado como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso, Kátia disfarçava no Caixa, pagando o caderno de dois cruzeiros.
Kátia chegou à escola após as colegas e entrou na sala, pois o recreio já tinha acabado. Na sala, Sandra e as outras entregavam aos colegas os chicletes Ploc surripiados no mercado.
A turma toda amou os doces recebidos, mas ninguém nunca soube o real surgimento de tantos chicletes.
E como termina essa história? Ah, ela termina assim...
A turma da 6ª série “C” amou mascar tantos chicletes, o diretor Sílvio nunca soube do fato, a mãe de Kátia não sabe dessa história até hoje, o dono do mercado certamente jamais descobriu quem abriu a caixa de chicletes Ploc (naquela época não havia câmeras nos estabelecimentos) e “As Impossíveis” contam e riem do episódio até os dias atuais, mas lá no fundinho há um pequeno remorso pela travessura.
VOCABULÁRIO:
- TAGARELAVA: falar muito sem nada dizer de importante.
- PANELAS: grupos de alunos que se fecham socialmente, interagindo quase exclusivamente entre si e dificultando a entrada de novas pessoas.
- MOLECAGEM: sugere uma atitude imatura ou falta de seriedade.
- PATOTA: gíria para designar "bando" ou grupo de confiança.
- LEVES: tranquilas.
- FLORIADA: refere-se a algo que é enfeitado com flores.
- À BEÇA: gíria brasileira que significa em grande quantidade, muito ou demais.
- SURRIPIAR: indica um furto feito de forma escondida.