Conversas matinais
| Crônica | 2025 - Antologia Maria Lurdes e Convidados | Manoel R. LeitePublicado em 09 de Março de 2026 ás 16h 03min
Manhãs chegam antes das palavras. Primeiro vem a luz, espalhando um amarelo suave nas paredes, janelas ainda entreabertas ou memos que nem se abrirão. Silêncio que a noite deixa como quem esquece um lenço sobre a mesa. Depois surgem os sons pequenos: o passarinho que testa o dia com uma nota breve, a chaleira começando a murmurar, algum portão que range anunciando que a cidade desperta sem pedir licença.
É nesse intervalo que nascem as conversas matinais.
Algumas acontecem à mesa da cozinha. O café ainda quente entre as mãos, o pão sendo partido com cuidado, alguém perguntando se o dia promete sol ou chuva. São conversas simples, mas carregadas de afeto silencioso. Nelas cabem conselhos, pequenas notícias, às vezes apenas a companhia de quem ainda está meio sonolento, mas já presente.
Outras conversas acontecem à distância.
Uma mensagem breve aparece na tela do celular antes mesmo que o café termine de esfriar: bom dia, dormiu bem? A resposta chega alguns segundos depois, atravessando cidades, bairros, quartos ainda em penumbra. Não se ouve a voz, mas há algo de humano naquele gesto repetido de escrever e esperar. A tecnologia, por mais fria que pareça, também aprende a carregar carinho quando mediada pela saudade.
Há ainda conversas que não acontecem.
Pessoas dividindo o mesmo espaço, cada uma olhando para sua própria tela, o silêncio ocupando a mesa como um terceiro convidado. Palavras existem, mas ficam suspensas, como se aguardassem coragem para atravessar o ar. Nem toda manhã encontra voz. Algumas apenas passam.
Mesmo assim, o dia continua abrindo as janelas.
Em algum lugar alguém ri enquanto mexe o açúcar no café. Em outro canto da cidade duas pessoas trocam notícias rápidas antes de seguir caminhos diferentes. Mais adiante um avô conta uma história enquanto o sol toca devagar o quintal.
Talvez seja isso que torna as manhãs tão especiais: elas carregam a promessa de que sempre é possível recomeçar uma conversa interrompida, aproximar um pouco o que ficou distante ou simplesmente dizer, com voz tranquila, aquilo que às vezes esquecemos no fim do dia.
Porque entre o primeiro raio de sol e o último gole de café, a vida insiste em lembrar que as palavras, quando ditas com calma, também sabem amanhecer.