Cuidado menina

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 26 de Maio de 2026 ás 20h 23min

Cuidado, Menina…

 

Cuidado… cuidado, menina!

O Arcanjo vem aí,

desce dos céus com passo firme e solene.

Traz os olhos acesos e brilhantes,

mergulhados em névoas de ouro vivo,

e empunha uma espada em plena ascensão,

que rasga e abre, com um corte de luz,

o ventre escuro e profundo da noite.

 

Olha, ó criança, para o alto, olha as estrelas!

Ergue os teus olhos cansados até elas,

toca o firmamento com o teu olhar…

Pois em alguma estrela distante e perdida no espaço,

esse ser poderoso haverá finalmente de repousar

as suas imensas asas,

pesadas e fatigadas de carregar a eternidade.

 

Cuidado… cuidado…

Ele avança, e pelo caminho que percorre,

vem colhendo, um a um, tesouros invisíveis:

pérolas antigas formadas de lágrimas esquecidas,

que ele recolhe com carinho,

tal como quem ajunta dores e sofrimentos

que a indiferença do mundo deixou cair e abandonou.

 

Em suas vestes puras e resplandecentes,

há um perfume raro e estranho,

inefável e divino,

de flores que jamais brotaram ou foram vistas aqui na terra,

flores misteriosas que só têm vida e cor

nos jardins secretos do sagrado exílio celeste.

 

Cuidado, menina, pois ele já está bem perto!

Os olhos dele não são apenas luz: são pura música —

uma melodia grave, lenta e muito profunda,

que envolve e hipnotiza a alma,

e tem o poder misterioso

de fazer até os próprios mortos abrirem os olhos e sonharem.

 

Ele caminha, e traz consigo, sussurrantes,

as vozes de heras que cresceram por séculos,

segredos guardados e enterrados nas ruínas do tempo,

e toda a natureza se curva diante da sua passagem:

até o vento, imponente e livre,

se cala e se inclina ao vê-lo passar.

 

Cuidado, menina…

não o encares, não olhes para ele por muito tempo.

Há abismos sem fundo dentro daquelas pupilas de luz,

e quem tem a coragem ou a desventura

de contemplar um Arcanjo face a face,

desse encontro jamais retorna inteiro…

Algo de si fica lá, para sempre,

perdido na imensidão do divino.

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