Devaneios

| Poesia Amorosa | Dolores Flor
Publicado em 30 de Julho de 2026 ás 15h 55min

Há afetos desterrados da matéria,
sem pouso, sem altar, sem direção,
que fazem do silêncio sua morada
e erguem no impossível um coração.

 

Quando a tarde adormece entre cortinas,
teu vulto vem habitar meu pensamento,
como um perfume antigo que regressa
para incendiar a quietude do momento.

 

Guardo teu nome em cofres de linguagem,
longe dos olhos ávidos do mundo,
pois cada sílaba que em mim te anuncia
desperta um mar indomável e profundo.

 

Não foi pequeno o fogo que nasceu,
nem insuficiente o desejo de ficar;
foi a existência, em sua arquitetura,
que ergueu outros destinos entre o amar.

 

Somos dois náufragos da mesma ausência,
reconhecendo-se em águas desiguais,
dois corações unidos pelo abismo
e separados por margens temporais.

 

Talvez também me busques nas palavras
quando a noite se recusa a fenecer,
e escondas minha imagem nos teus versos
para amar sem ao meu nome pertencer.

 

Eu te reconheço em cada metáfora,
na chuva que se inclina sobre a flor,
no café que permanece à mesa fria,
na lua que pronuncia o nosso amor.

 

Tu transformas em poesia o que não alcanças,
eu faço do silêncio uma oração;
assim, cada poema nos aproxima
onde não chegam corpo, voz ou mão.

 

Talvez amar seja também permanecer
sem profanar os caminhos de ninguém,
acolher no íntimo aquilo que nos falta
e desejar ao outro todo o bem.

 

Se os nossos braços vivem impedidos,
que os versos aprendam a se abraçar;
há sentimentos que não encontram vida,
mas encontram eternidade ao se narrar.

 

Somos o beijo intacto na lembrança,
a chama que os anos não desfazem,
a saudade que atravessa nossas noites
e os gestos que, em silêncio, ainda se fazem.

 

Não posso te chamar diante do mundo,
mas toda a minha escrita sabe quem tu és;
tu permaneces oculto em cada página,
como um destino escrito ao meu revés.

 

E se jamais vivermos nossa história,
não pense que ela deixou de acontecer:
há amores que não chegam aos caminhos,
mas fazem uma alma inteira florescer.

 

Quando o último verso enfim se calar
e o tempo recolher o que escrevi,
restará, entre o silêncio e a memória,
a certeza de que sempre te senti.

 

Comentários

Silêncio e memória, produzem muitos devaneios.

Manoel R. Leite | 30/07/2026 ás 16:59
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