Há afetos desterrados da matéria,
sem pouso, sem altar, sem direção,
que fazem do silêncio sua morada
e erguem no impossível um coração.
Quando a tarde adormece entre cortinas,
teu vulto vem habitar meu pensamento,
como um perfume antigo que regressa
para incendiar a quietude do momento.
Guardo teu nome em cofres de linguagem,
longe dos olhos ávidos do mundo,
pois cada sílaba que em mim te anuncia
desperta um mar indomável e profundo.
Não foi pequeno o fogo que nasceu,
nem insuficiente o desejo de ficar;
foi a existência, em sua arquitetura,
que ergueu outros destinos entre o amar.
Somos dois náufragos da mesma ausência,
reconhecendo-se em águas desiguais,
dois corações unidos pelo abismo
e separados por margens temporais.
Talvez também me busques nas palavras
quando a noite se recusa a fenecer,
e escondas minha imagem nos teus versos
para amar sem ao meu nome pertencer.
Eu te reconheço em cada metáfora,
na chuva que se inclina sobre a flor,
no café que permanece à mesa fria,
na lua que pronuncia o nosso amor.
Tu transformas em poesia o que não alcanças,
eu faço do silêncio uma oração;
assim, cada poema nos aproxima
onde não chegam corpo, voz ou mão.
Talvez amar seja também permanecer
sem profanar os caminhos de ninguém,
acolher no íntimo aquilo que nos falta
e desejar ao outro todo o bem.
Se os nossos braços vivem impedidos,
que os versos aprendam a se abraçar;
há sentimentos que não encontram vida,
mas encontram eternidade ao se narrar.
Somos o beijo intacto na lembrança,
a chama que os anos não desfazem,
a saudade que atravessa nossas noites
e os gestos que, em silêncio, ainda se fazem.
Não posso te chamar diante do mundo,
mas toda a minha escrita sabe quem tu és;
tu permaneces oculto em cada página,
como um destino escrito ao meu revés.
E se jamais vivermos nossa história,
não pense que ela deixou de acontecer:
há amores que não chegam aos caminhos,
mas fazem uma alma inteira florescer.
Quando o último verso enfim se calar
e o tempo recolher o que escrevi,
restará, entre o silêncio e a memória,
a certeza de que sempre te senti.
Comentários
Silêncio e memória, produzem muitos devaneios.