“Diga não a violência e sim ao cuidado”
Contos | Marlete DacrocePublicado em 28 de Janeiro de 2026 ás 09h 49min
“Diga não a violência e sim ao cuidado”
Dona Maria costumava sentar na calçada todas as tardes. Não para vigiar a rua, mas para lembrar. Cada pessoa que passava despertava nela um fragmento do tempo, como se sua vida inteira estivesse guardada ali, nos olhos atentos e nas mãos marcadas.
Certa vez, um rapaz apressado respondeu com voz alta quando ela pediu ajuda para atravessar a rua. O som daquela impaciência doeu mais do que o cansaço nas pernas. Não era o tom apenas era o esquecimento. Esquecimento de que ali estava alguém que já havia trilhado longos caminhos.
Minutos depois, outra mão se estendeu. Firme, respeitosa. Sem pressa. Aquele gesto simples dizia mais do que qualquer palavra. Ao idoso, não se levanta a voz: oferece-se a mão. Quem viveu tanto merece proteção, não confronto.
Dona Maria carregava histórias de lutas silenciosas, de dias difíceis e vitórias que nunca viraram notícia. Cada idoso é memória viva, raiz profunda que sustenta gerações inteiras. Quando o abandono aparece, corrói por dentro como ferrugem. Mas o respeito, ah, o respeito ilumina. É luz que consola ponte que não se destrói com o tempo.
Naquela tarde, a rua seguiu seu curso, mas algo ficou. Um recado invisível pairava no ar: diga não à violência, diga sim ao cuidado. A violência empurra para longe da humanidade; o cuidado aproxima do que somos.
Quem cuida de um idoso, cuida também do próprio passado, e semeia o futuro. Pois nos gestos de carinho, a vida nos dá lições. As sementes que plantamos hoje será o colo que acolherá nossos filhos amanhã, a nossa geração.