DONA JOANITA, A PASSAGEIRA DAS HISTÓRIAS
| Crônica | 2026/05 Antologia Dias escritos em prosa | Eidi MartinsPublicado em 28 de Maio de 2026 ás 20h 40min
Toda segunda e sexta-feira o despertador toca antes mesmo de o sol pensar em aparecer. Às 4h30min daquela sexta-feira, o alarme fez o seu papel sem piedade. Levantei ainda meio sonolenta, tomei banho, coloquei o café para passar e arrumei a mesa seguindo um ritual já programado: duas xícaras, um pote de bolachas salgadas enquanto escutava o barulho do meu esposo despertando também para o serviço.
A viagem começou como tantas outras. Saímos do ponto exatamente às seis da manhã, cortando a estrada de terra, enquanto o céu começava devagar a clarear no horizonte. No início, apenas três passageiros. Pouca conversa, alguns bocejos e o som constante do ônibus vencendo os quilômetros de chão da Estrada E60.
Mais adiante, outros passageiros foram subindo pelo caminho. Gente carregando sacolas, bolsas e planos para resolver na cidade. Cada parada parecia acrescentar um pedaço novo àquela manhã.
Mas foi ao chegarmos no carreador de dona Joanita que a viagem deixou de ser apenas mais uma sexta-feira.
Ela já passou dos noventa anos, mas conserva uma alegria difícil de encontrar até nos mais jovens. Pequena no tamanho, gigante nas histórias. Mãe de vinte e três filhos, dona de uma incontável coleção de netos e bisnetos. Ela sobe no ônibus, cumprimenta um por um, pergunta da família, reclama do calor, ri das próprias lembranças e transforma o ônibus numa extensão da sua varanda.
Naquela manhã, sentou-se na terceira poltrona do corredor, do lado direito, que ainda estava vazia. Então começou a contar sobre os tempos em que havia se mudado para o sítio e em que viajar significava enfrentar lama, poeira e dias inteiros de estrada. Enquanto ela falava, pensei comigo mesma que, ainda hoje, continua sendo assim: em época de chuva, muita lama; em época de seca, muita poeira. E cada viagem dura praticamente um dia inteiro entre sair e voltar para casa.
Ela seguia falando das lembranças dos filhos pequenos e das dificuldades da roça, como se abrisse um álbum de fotografias invisíveis.
E o mais curioso era perceber que ninguém parecia ter pressa enquanto ela falava. O ônibus seguia viagem, mas por alguns minutos todos viajávamos também pelas memórias de dona Joanita.
Às vezes penso que essas viagens semanais são sempre iguais: mesmos horários, mesma estrada, mesmas paradas. Mas basta alguém como dona Joanita subir os degraus do ônibus para a rotina ganhar encanto.
Naquela sexta-feira, o trajeto continuou o mesmo. A estrada também. Mas a viagem ficou diferente, porque certas pessoas carregam consigo o raro dom de transformar quilômetros em lembranças.
Peixoto de Azevedo/MT, maio de 2026
Comentários
Parabéns! Um texto que celebra a memória, a oralidade e a beleza das histórias que resistem ao tempo.