Duas luas no céu

Poemas | Poesia Existencial | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 28 de Maio de 2026 ás 07h 45min

Duas Luas no Céu

 

Ele era, sim, duas luas brilhantes no céu,

duas luas antigas, profundas e silenciosas,

que ardiam e resplandeciam sobre a noite escura do mundo,

tal como os olhos imensos e tristes

de um deus que o tempo, por descuido ou dor, acabou por esquecer.

 

Ele chorava… e o seu pranto eram estrelas que se partiam,

raios de luz que se despedaçavam no espaço.

E cada lágrima de luz sua,

pesada e lenta,

caía devagar, suave mas inevitável,

sobre os telhados e as ruas da Terra,

abrindo feridas brancas e de prata pura

nos jardins que, assustados, tentavam permanecer adormecidos.

 

Havia nele uma tristeza que não cabia no coração,

uma dor vasta e cósmica,

um perfume raro de eternidade ferida e machucada,

como se ele carregasse sozinho, nos seus ombros imensos,

o peso insuportável e sagrado

de todos os adeuses que já foram ditos na existência.

 

Silêncio…

Até os ventos mais velhos paravam de soprar para ouvi-lo.

As flores, com medo de tocar essa dor,

fechavam rapidamente as suas pétalas,

recuando diante daquela imensa melancolia

que escorria do alto do céu, densa e fria,

feito uma névoa que tudo cobre e toca.

 

Ele era belo… mas belo de uma beleza impossível,

algo que não podia ser tocado nem compreendido pela terra.

Seus cabelos compridos eram como rios escuros de sombra,

que corriam pelo firmamento,

e a sua voz grave e suave era uma canção muito distante,

uma melodia nascida e cantada

muito antes do primeiro amanhecer do mundo.

 

À noite, as crianças, olhos cheios de espanto,

fitavam o firmamento ereto e perguntavam aos anjos que passavam:

— “Quem é aquele que chora tão alto e tão fundo entre as estrelas?”

 

Mas os anjos, seres de luz e de paz,

baixavam a cabeça e se calavam, em respeito e temor.

Porque até eles, imortais e poderosos,

temiam e se curvavam diante daquela solidão luminosa,

daquele vazio brilhante e infinito

que pertencia àquele ser único,

que era duas luas no céu,

chorando, eternamente,

estrelas partidas.

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