E se nunca houvesse saudades
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 27 de Maio de 2026 ás 19h 54min
E Se Nunca Houvesse Saudades?
E se nunca houvesse saudades?
Talvez a dor jamais desistisse
de morar para sempre nos corredores da alma,
como uma viúva vestida de frio e de inverno,
sentada e contando estrelas que já se apagaram
na longa e fria varanda do silêncio.
Porque a saudade, na sua essência,
é muitas vezes a única flor rara e resistente
que consegue nascer, sozinha e bela,
sobre os duros e escuros escombros do amor.
Ela chora — é verdade, tem suas lágrimas —
mas também é luz: acende pequenas lamparinas de esperança
na imensa e escura noite daqueles
que pensaram, um dia, ter perdido tudo.
Sem a sua presença, a saudade,
os nossos olhos seriam apenas desertos vastos e secos,
totalmente sem memória,
rios que, por esquecimento, desaprenderam
o caminho de volta para o mar.
Nenhuma canção antiga e suave
pisaria devagar, com doçura,
sobre os ombros cansados e curvados do mundo.
Nenhum coração sensível jamais ouviria, vindo de muito longe,
o eco dourado e suave das coisas que são eternas.
Talvez a dor fosse, então, infinita e eterna,
se não existisse o perfume triste e doce da lembrança.
Talvez o adeus fosse apenas uma pedra bruta,
fria, pesada e muda,
se não houvesse as mãos invisíveis e carinhosas da saudade
para cobri-lo, com paciência, de luz e de estrelas.
Ah… mas ainda bem que existe a saudade.
Essa peregrina melancólica e doce,
que atravessa madrugadas inteiras caminhando descalça,
carregando nos braços frágeis e amorosos
os restos luminosos e sagrados de tudo o que um dia amamos.
E é justamente por causa dela,
que a dor, às vezes, consegue finalmente adormecer.
Porque a saudade tem esse dom misterioso e divino:
ela pega as lágrimas que caem dos nossos olhos
e, devagar, com carinho,
transforma-as em lindas e eternas constelações.