Em alto mar

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 17 de Maio de 2026 ás 07h 02min

Em alto mar

 

de Rosy Neves

 

Em alto mar

havia um marinheiro

com sua guitarra —

um casulo de madeira

e cordas esticadas

que cantavam

mesmo sem ser tocadas.

 

Ele remava

com um ritmo próprio;

a cada puxada

um verso nascia.

O balanço das ondas

era a melodia

que embalava seus pensamentos.

 

Seu barco era um amigo,

a guitarra, a confidente,

e o mar, um palco infinito

onde ele desnudava a alma

sem medo, sem pudor —

apenas a canção e o horizonte.

 

No começo,

o sol pintava o céu de ouro

e a lua, uma prata polida;

mas ele não parava de remar,

tão imerso em sua arte

que o tempo se esvaía

como a água entre os dedos.

 

Cada nota

era um grão de areia

seco, que o vento levava

para longe, para perto,

para dentro de si.

A saudade de terra

era uma nota grave

que ele resolvia com um acorde maior.

 

E então

veio uma ondinha,

pequena, maliciosa,

um sopro do oceano

que riu do seu esforço

e sussurrou segredos

que ele não compreendeu.

 

A onda

não era gigante

nem assustadora —

apenas um convite

para o descanso,

para a rendição,

para o fim do remar.

 

Ela o beijou

com sua espuma fria,

e a guitarra, antes tão firme

no seu colo,

deslizou e mergulhou

em um adeus silencioso.

 

O marinheiro

sentiu o braço falhar,

a força fugir —

a força de remar,

de criar,

de existir

naquele espaço líquido.

 

O remo escorregou,

rolou e se perdeu

na imensidão

onde tudo é um e nada é,

e a canção calou-se.

 

Em alto mar

havia um marinheiro

que não podia mais remar.

A guitarra, em seu silêncio,

tornou-se um eco

de um tempo que foi,

de um som que se perdeu.

 

O barco, agora à deriva,

seguia o capricho

do vento e da maré,

sem rumo, sem destino —

apenas a paz

de não ter mais que remar.

 

As ondinhas

continuavam a brincar,

a lamber a madeira gasta,

a levar embora

o último vestígio

da melodia que um dia

preencheu o vazio.

 

E o marinheiro

olhava para o céu,

agora pontilhado de estrelas,

e sentia a vastidão

não mais como um palco,

mas como um abraço

profundo, sem fim.

 

A guitarra

era apenas uma memória,

um sonho de madeira e cordas

que flutuava em algum lugar,

nos reinos submersos.

 

E em alto mar,

onde o som se apaga

e a forma se dissolve,

ficou a saudade

de um homem e sua música,

perdida

na dança eterna do oceano.

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