Enquanto escrevo

| Prosa Poética | 2026/3 Antologia Rascunho do Eu: enquanto me escrevo | Manoel R. Leite
Publicado em 01 de Abril de 2026 ás 07h 09min

 

Enquanto escrevo, há uma espécie de respiração que não pertence ao corpo. É outra coisa, mais silenciosa e mais profunda, como se as palavras fossem pulmões improvisados tentando dar conta de um ar que não se deixa conter. Não o faço para dizer, percebo isso tarde demais, escrevo para escutar o que ainda não encontrou forma. E, mesmo assim, o que escuto não se fixa, escorre pelas bordas da consciência como água que recusa e ao mesmo tempo toma conta de qualquer recipiente.

Há momentos em que sinto que estou diante de mim mesmo como diante de um retrato antigo, desses que não envelhecem no papel, mas apodrecem por dentro. Penso em O Retrato de Dorian Gray e naquilo que se deteriora longe dos olhos, escondido no que não mostramos. Talvez escrever seja isso: olhar para o retrato que não penduramos na parede. Algo em mim que se altera enquanto escrevo, mas não sei dizer se melhora ou se apenas se revela.

Mundo continua, essa continuidade tem algo de cruel. Enquanto tento organizar uma frase, alguém atravessa uma guerra sem metáforas. Enquanto hesito entre duas palavras, uma decisão política muda destinos que nunca saberei nomear. Há máquinas aprendendo a prever emoções humanas com mais precisão do que nós mesmos, há cidades crescendo sobre memórias soterradas, há crianças rindo sem saber que um dia esquecerão como se faz isso com leveza.

E ainda assim, escrevo.

Escrevo como quem insiste em acender uma vela durante uma tempestade elétrica.

Existe uma estranha tensão entre o que é íntimo e o que é vasto. Como se cada palavra carregasse um peso maior do que aparenta. Lembro de Crime e Castigo, não pela culpa em si, mas pelo pensamento que se volta contra quem pensa, pela consciência que não encontra repouso. Escrever também é um tipo de investigação, mas sem crime definido, sem solução, sem absolvição. Apenas o movimento constante de quem tenta compreender algo que sempre se desloca.

Às vezes sinto-me o personagem do Retrato do Artista Quando Jovem, não no sentido da formação, mas da inquietação que nunca amadurece completamente. Há sempre algo inacabado, uma borda mal definida, uma ideia que se forma e se desfaz antes de se sustentar. Como se crescer, no campo da escrita, fosse apenas acumular perguntas mais sofisticadas.

E, também o absurdo, aquele desconforto silencioso que percorre tudo. Lembro de O Idiota, não pela inocência, mas pela inadequação, pela sensação de não caber completamente no mundo que se observa. Escrever é, muitas vezes, assumir esse lugar deslocado, esse olhar que não se encaixa, que não acompanha o ritmo das certezas coletivas.

 

Enquanto escrevo, algo em mim tenta nomear o indizível, mas sempre falha um pouco. Essa falha necessária. Clarice Lispector já insinuava que a palavra não alcança, apenas contorna. No contorno, paradoxalmente, algo se revela. Não o objeto, mas a ausência dele.

Encontro também uma delicadeza que resiste. Um tipo de esperança que não se anuncia. Penso em Rubem Alves, não como referência direta, mas como atmosfera, capacidade de transformar pensamento em sensação, de fazer a palavra respirar sem pressa. Talvez escrever seja, também, um gesto de cuidado com aquilo que ainda não sabemos sentir completamente.

Mas não há conforto pleno nisso.

Porque enquanto escrevo, o tempo não espera que eu termine. Ele atravessa. Ele leva. Ele modifica tudo sem pedir autorização. Há textos que começo em uma versão de mim e termino em outra, e, às vezes, nem termino. Ficam como fragmentos de um percurso que já não reconheço inteiramente. Como cidades abandonadas dentro da própria memória.

Escrever não organiza o caos. No máximo, torna o caos habitável por alguns instantes.

Vive inquietante: a percepção de que nenhuma palavra sustenta o mundo, mas, ainda assim, continuamos tentando.

Talvez porque escrever não seja sobre sustentar o mundo. Talvez seja sobre não desaparecer com ele.

Enquanto escrevo, percebo que não sou o único. Há milhares, milhões, escrevendo ao mesmo tempo, em diferentes línguas, diferentes dores, diferentes silêncios. Cada um tentando, à sua maneira, tocar algo que não pode ser possuído. Cada texto como um rascunho de existência, um vestígio de consciência deixado no tempo.

E o tempo, indiferente, segue. Não guarda. Não organiza. Não explica.

Apenas passa.

Talvez seja isso que nos une, não o que dizemos, mas o fato de continuarmos dizendo, mesmo sem garantia de sentido, mesmo sem promessa de permanência.

Porque, no fim, escrever não é um ato de conclusão. É um ato de persistência.

E enquanto houver alguém tentando transformar silêncio em linguagem, ausência em presença, sensação em palavra, o mundo, apesar de tudo, ainda não terá terminado de se escrever.

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