ENTRE SONS E SILÊNCIOS: UMA ESPERA QUE REVERBERA

Escola | | Simone Brasil
Publicado em 01 de Outubro de 2026 ás 16h 19min

 ENTRE SONS E SILÊNCIOS: UMA ESPERA QUE REVERBERA

 

Através de uma música, resgatamos um casulo,
Um móbile foi construído para sua moradia.
Como quem recolhe o silêncio de um segredo,
O casulo passou a habitar nossas esperas, curiosidades e escutas.

 

Seu cantinho de mundo foi a sala referência.                              
No dia seguinte, misteriosamente, o casulo desapareceu.
Ansiosas, as crianças saíram à procura do peralta,
Nos galhos, nas folhas, de um lado para o outro e até no chão.

 

Depois de várias procuras,
Encontramo-lo bem lá em cima,
Camuflado na placa da música,
Como se a natureza nos revelasse o que ainda não sabíamos escutar.

 

Após alguns dias, disseram-nos que o CMEI seria dedetizado.
Não poderia deixar que o veneno silenciasse uma pequena vida.
Então, com muito afeto, o casulo foi morar em minha casa.               
Pensávamos que permanecia imóvel, mergulhado em silêncio.

 

Em uma manhã, assustamo-nos uma com a outra.
Lá estava ela, com muita calma, passeando pelo galho.                                          
Metade ainda no casulo e a outra metade explorando o mundo.
Aproximei-me de pertinho; nosso susto foi mútuo, e ela se recolheu ao casulo.

 

Este pequeno milagre foi registrado em vídeo,
Para que as crianças contemplassem o movimento escondido no silêncio.
Descobrimos que nem toda quietude é ausência de vida.
Há silêncios que florescem devagar, no compasso da natureza.

 

Passeava de noite e de dia; até na cortina ele subia.
Ao amanhecer, com ajuda, retornava ao galho,
Como quem sabe que o desafio de se aventurar,
Também precisa de um lugar para descansar.

 

E, em cada imagem, a espera transformava-se em descoberta.
Nas folhas prediletas, deixava suas pequenas marcas.
Cada nhoc... nhoc... nhoc... compunha uma melodia quase invisível,
Que foi registrado para que as crianças também pudessem escutá-la

Ela enchia a sua pança, escondia-se e, de vez em quando,                        
Caíam pequenos cocozinhos: tic... outros tic, tic...
Minúsculos pontinhos pretos sobre a superfície.
Os rastros da lagarta fazem  música quando alguém resolve escutar.

 

Com o passar de algumas semanas, os nhoc... nhoc... tic... tic... diminuíram.
A lagarta se encolheu e escolheu em silêncio ficar.
Silêncio não de ausência, de transformação.
Silêncio de quem fabrica asas.

 

As crianças disseram que o casulo já podia voltar ao CMEI.
A espera ganhou o tamanho da curiosidade.
Quatro semanas cabem inteiras dentro da infância.
Porque, para as crianças, a natureza floresce em descobertas.

 

Então... o grande dia chegou: o casulo voltou ao CMEI!
Nos olhos das crianças, moravam a curiosidade e a espera.
Indagados sobre a eclosão do casulo, ressoaram:"Creeec", "Booww" e "Pufff" baixinho.
Na infância, até o invisível torna-se visível e ganha som.

 

Metaforicamente, toda criança é uma lagarta.
Sai devorando o mundo com seus olhos curiosos.
Belisca folhas ao vento, faz de uma cabaça um monstro, conversa com formigas...
Transforma qualquer quintal num universo inteiro.

 

Depois, quando menos esperamos,
Faz casulo e silencia.
Cresce por dentro, em seu próprio tempo,
Até perceber as asas que sempre estiveram dentro de si.

 

Há músicas que não se cantam, elas eclodem.
Assim como o voo de uma borboleta que começa antes das asas.
Nasce quando uma criança se encanta com as miudezas
e percebe que nelas mora um mundo inteiro de descobertas.

                                                                                               ( Simone Brasil)

 

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