“Entre TEMPESTADES e Silêncios”
Educação | Romance psicológico | Marlete DacrocePublicado em 02 de Abril de 2026 ás 08h 00min
“Entre TEMPESTADES e Silêncios”
Desde menina Celeste, sabia que havia algo diferente no modo como o mundo a tocava. As noites, por exemplo, nunca foram feitas para descanso. Enquanto a cidade dormia, seu corpo permanecia em vigília, olhos abertos no escuro, mente inquieta, como se cada som fosse um chamado impossível de ignorar. Um leve ruído, um pensamento atravessado, uma lembrança qualquer… e o sono se desfazia como neblina ao amanhecer. Os pesadelos vinham com frequência na infância, e até hoje o desassossego a visitava quando o silêncio profundo demais.
Ela aprendeu cedo que sentir podia ser extremo.
Havia momentos em que se machucava e não sentia dor alguma, o sangue era apenas uma cor, um detalhe. Em outros, o simples toque do vento parecia lixar sua pele, como se o mundo inteiro fosse áspero demais para sua existência. O couro cabeludo doía constantemente, os cabelos espetavam como alfinetes invisíveis. Um ruído mais agudo, uma fala mal colocada, e tudo dentro dela se contraíam.
O corpo era um território de contrastes.
A cabeça pulsava em enxaquecas desde a infância, os ouvidos doíam sem aviso, o estômago se revoltava com certos alimentos. Ainda assim, ela dançava. Dançava até os pés criarem bolhas de sangue e continuava. Porque ali, no movimento, existia uma liberdade que nenhuma dor podia roubar.
Era também no movimento que sua inquietação encontrava forma. Andava de um lado para o outro, como se procurasse algo invisível, uma resposta que o mundo não sabia dar. Repetia palavras, às vezes por horas, como ecos que precisavam existir para que ela mesma se compreendesse.
Mas nem tudo era dor.
Dentro dela havia uma precisão quase mágica. Sua memória guardava detalhes que outros sequer percebiam. Seu foco era absoluto, quando algo a interessava, o mundo desaparecia ao redor. Havia beleza nisso. Havia potência.
Ela gostava de ordem. Cada coisa em seu lugar. Cada espaço organizado como se fosse uma forma de silenciar o caos externo. As etiquetas das roupas precisavam desaparecer, os tecidos precisavam ser suportáveis, os estímulos, controlados. Até os tapetes exigiam cuidado. Era como viver em constante negociação com o ambiente.
E as pessoas… ah, as pessoas eram um mistério mais difícil.
Aprendeu a se camuflar. A observar, imitar, ajustar palavras e expressões para caber nos espaços sociais. Falar nem sempre era fácil. Ler em voz alta, se expor, contar algo em público tudo isso exigia um esforço invisível. Piadas, quando direcionadas, não soavam com leveza, mas como pequenas agressões que feriam por dentro.
Ainda assim, ela seguiu.
Escolhia com cuidado o que fazia. Desde pequena, só se entregava ao que realmente a tocava. E foi assim que construiu sua vida com intenção, com foco, com coragem.
Havia também medos difíceis de explicar. Colocar a cabeça debaixo d’água, por exemplo, parecia impossível, como se o ar fosse desaparecer para sempre. Pequenas coisas para o mundo, gigantes dentro dela.
Mas, apesar de tudo, havia algo maior.
Celeste era feliz.
Não porque tudo fosse fácil, mas porque aprendeu a se entender. Conquistou o que desejava. Descobriu que suas diferenças não eram falhas, mas formas únicas de existir. Cada sensibilidade, cada intensidade, cada silêncio… tudo fazia parte de quem ela era.
E, ao olhar para si mesma, finalmente compreendeu:
O autismo não a definia.
Apenas explicava, com delicadeza e verdade, quem ela sempre foi.