Entre um ponto e outro
| Conto | 2026/4 Antologia Breves narrativas do cotidiano: entre histórias e versos do dia a dia | Manoel R. LeitePublicado em 01 de Abril de 2026 ás 15h 05min
O ônibus não chega atrasado nem adiantado. Ele apenas chega, como chegam as coisas que não se explicam. Encosta com um suspiro metálico, abre a porta com certa indiferença e engole mais um grupo de vidas que não se conhecem e, ainda assim, se repetem todos os dias.
Quem observa de fora vê apenas movimento. Quem entra carrega uma pequena biografia comprimida no corpo.
Há o homem que sempre se senta próximo à janela, não porque aprecia a paisagem, mas porque precisa de um limite, vidro entre ele e o restante do mundo. Olha para fora como se procurasse algo que nunca esteve ali. Talvez não procure nada. Talvez apenas evite.
Há também a mulher que segura a bolsa com firmeza excessiva. Não por medo imediato, mas por um tipo de memória que se acumulou ao longo dos anos. Seus olhos percorrem o interior do ônibus com rapidez treinada, como quem lê um texto conhecido e ainda assim desconfia de cada linha.
Dois estudantes conversam alto no fundo. Riem de algo que perderá importância antes mesmo de descerem. Há leveza neles, uma leveza que não é ausência de peso, mas desconhecimento dele.
O motorista não olha para ninguém. Seu trabalho é conduzir, não interpretar. Ainda assim, conhece os rostos. Não pelos nomes, mas pela frequência. Sabe quem desce antes, quem sempre hesita ao subir, quem demora um segundo a mais para levantar do banco. É uma espécie de conhecimento silencioso, que não se declara.
Entre um ponto e outro, o ônibus se torna um lugar onde as histórias não se encontram, mas se atravessam.
Um homem em pé, segurando a barra superior com esforço discreto. Seus dedos denunciam mais do que sua postura permite. Talvez tenha passado a noite em claro. Talvez esteja apenas cansado de algo que não cabe em palavras simples.
Mais à frente, uma senhora observa tudo com calma antiga. Não intervém, não julga, não se surpreende. Há nela uma aceitação que não é passiva, mas experimentada. Como se já tivesse visto esse mesmo cenário sob muitas variações e soubesse que nada ali é realmente novo.
Um celular toca. Alguém atende com voz baixa. Fala pouco, escuta mais. Quem está ao redor capta fragmentos, palavras soltas, desconexas, e, ainda assim, constrói histórias inteiras a partir delas. Nenhuma verdadeira, todas possíveis.
O ônibus segue.
Lá fora, a cidade se organiza em pressa. Pessoas caminham como se estivessem sempre a poucos minutos de algo importante. Placas, semáforos, vitrines, fachadas, tudo compõe uma paisagem que se repete até perder significado. Dentro do ônibus, essa repetição ganha outra textura. É mais lenta, mais próxima, mais humana.
Certo jovem observa o próprio reflexo no vidro. Por um instante, não parece reconhecer o que vê. Ajusta a postura, passa a mão no cabelo, tenta recompor uma imagem que talvez nunca tenha sido estável. O vidro devolve o que pode, não o que ele espera.
Existe também quem escreva mensagens que nunca serão enviadas. Dedos que digitam e apagam, constroem e desfazem. Pequenos ensaios de coragem que não atravessam a tela.
Entre um ponto e outro, decisões são quase tomadas. Palavras quase ditas. Mudanças quase iniciadas.
Mas o ônibus não espera conclusões.
Ele para, abre a porta, permite a descida.
Alguns saem como quem cumpre um roteiro conhecido. Outros descem com um leve atraso, como se ainda estivessem organizando algo por dentro. Também existem os que permanecem, mesmo chegando, não ao ponto, mas a uma percepção que ainda não sabem nomear.
O ônibus segue.
E com ele seguem histórias que nunca se cruzam de verdade.
Não porque não possam, mas porque não precisam.
Quem sabe o cotidiano seja isso, uma convivência silenciosa entre destinos que se tocam sem se reconhecer. Cada passageiro levando consigo um mundo inteiro, comprimido entre compromissos, lembranças e pequenas inquietações que não encontram espaço para se expandir.
Entre um ponto e outro, quase nada acontece.
E, ainda assim, tudo acontece.