Eu descobri que ele pertencia ao mar

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 07 de Março de 2026 ás 07h 29min

A descoberta veio leve, 

como a espuma fina na areia fria. 

Um sussurro no silêncio da manhã, 

quando o sol ainda hesitava em nascer. 

 

Eu vi, no mapa intrincado de seus gestos, 

na curva do ombro ao respirar fundo, 

a vastidão azul. 

O mar inteiro cabia ali, 

em um espaço que eu nunca soube nomear. 

 

Era dele, inegavelmente. 

As marés que moviam seu olhar distante, 

a profundidade escura de suas pausas. 

Eu mergulhava, 

esperando encontrar o fundo conhecido, 

a rocha firme para ancorar meu pequeno barco. 

 

Mas ele não tinha âncoras. 

 

Ele era água em movimento constante, 

e tentar segurá-lo 

era como tentar reter a névoa da manhã 

entre os dedos abertos. 

 

Eu me prendia, sim, 

com a força de quem teme o vazio, 

tecendo redes invisíveis de afeto e rotina, 

construindo diques contra a sua natureza fluida. 

Um esforço fútil, 

uma canção desafinada tentando harmonizar com a correnteza. 

 

Pois ele era apenas brisa. 

Não a tempestade que eu desejava enfrentar, 

nem o oceano que eu poderia mapear. 

A brisa que passa, 

que toca a pele e segue adiante, 

sem dever explicações ao vento que a sucede. 

 

E mais do que brisa, 

era a memória de um outro céu. 

Névoa de uma outra constelação. 

Um brilho que vinha de longe, 

de um sistema solar onde minhas coordenadas não existiam. 

 

Eu era a terra firme, 

o cais esperando o navio que jamais atracaria de forma permanente. 

Ele, o etéreo, 

o vapor que se eleva e se dissolve 

na imensidão que não me pertencia. 

 

Entender isso foi rasgar o mapa. 

Soltar a linha da pipa que voava alto demais. 

Deixar que o sal seque sem deixar vestígios pesados. 

 

A inutilidade não era minha, nem dele, 

era apenas a física da distância. 

Ele pertencia ao azul sem limites, 

e eu, 

eu aprendia a ser apenas a margem, 

observando a maré subir e descer, 

sabendo que o mar, que era dele, 

continuaria a ser dele, 

mesmo que eu parasse de olhar. 

 

E na aceitação dessa brisa distante, 

eu comecei a sentir o meu próprio ar, 

o meu próprio horizonte singular. 

Ele era a nebulosa. 

Eu, o solo que finalmente descansava.

Comentários

Olá! Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies.