Eu era uma borboleta
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 27 de Fevereiro de 2026 ás 06h 46min
Eu era uma borboleta
presa dentro
de um quarto de seda,
um casulo esquecido.
O mundo lá fora era um boato,
um zumbido distante
de vento através do bambu,
uma caligrafia da chuva
em folhas que não conseguia ver.
Minha China
era esse abraço apertado,
essa espera, essa lenta transformação
de rastejante para voadora.
Sonhava em tons de jade
e no profundo carmesim
de vestes imperiais.
O ar tinha gosto de chá antigo
e de terra úmida.
Os dias se fundiram em semanas,
a luz da lua um banho fino e pálido
que se infiltrava pelas paredes tecidas. Eu escutava os sons da noite:
o chirro de grilos invisíveis,
a canção distante de um rio,
uma linguagem de correntes.
Lembrava-me apenas de fragmentos
de luz solar nas asas,
uma memória breve e ofuscante
antes que começasse o dobramento,
o encolhimento necessário.
Seria eu destinada ao florescimento
das peônias no jardim do Imperador?
Ou ao vôo selvagem
sobre terras de arroz em terrasse,
um lampejo de seda pintada
contra as montanhas cinzentas?
A casca endureceu ao meu redor,
um pequeno mundo castanho,
perfeitamente feito para o silêncio. Eu me empurrei, uma pressão interna lenta,
o instinto de me tornar.
A escuridão não era vazia,
estava cheia de transformação,
uma explosão em câmera lenta. Senti a arquitetura frágil
do meu eu futuro se formando,
veias se desenhando,
cor esperando para ser despertada.
Então, um rasgo súbito.
Não por escolha, mas por necessidade.
A tecido se despedaçou.
A primeira respiração de ar estranho,
fresco e agudo,
invadiu pulmões que não sabia possuir. Agarrei-me à casca do meu eu antigo,
úmida e amassada,
uma coisa mal reconhecida.
E então, lentamente,
o desdobramento.
Asas, pesadas e tentativas,
esticando-se em direção ao azul inimaginável. Minha China, não mais um sonho sussurrado,
mas uma vasta extensão aterrorizante
de luz e verde imponente,
esperando por uma dança hesitante e completamente nova.